No passado dia 11 de novembro de 2023, celebrou o 105º aniversário da assinatura do Armistício que colocou um fim na Primeira Guerra Mundial.
Um oficial do Exército Inglês, que participou no conflito, escreveu escreveu um poema intitulado “Nos Campos da Flandres” , onde refere as papoilas que crescem entre as campas dos que caíram.
Esse poema acabou por originar a tradição do uso de uma papoila na lapela nesse dia, em hora dos que se bateram e caíram em combate.
A tradição da papoila tem mais expressão nos países da Commonwealth, mas alastrou-se à Europa, América do Sul, África e Ásia não britânicas. Em Portugal esta tradição não colou, embora tivéssemos perdido em poucas semanas de combate quase tantos mortos como nos 14 anos de Guerra no Ultramar.
Os meios aéreos que a ONU utiliza nas suas operações não são pertença daquela organização. É lançado um concurso público internacional, e quem ganhar esse concurso fornece o serviço completo de “aeronaves e tripulações prontas na linha da frente”. Geralmente, quem concorre são empresas especializadas na área, que depois subcontratam os operadores aéreos, buscando a melhor relação preço/qualidade (onde o preço tem ascendência). Depois, para reforçar as operações aéreas em determinados territórios, os países interessados oferecem mais meios aéreos, cuja operação é comparticipada pela ONU.
Na missão da ONU para as primeiras eleições angolanas, em 1992, os helicópteros ao serviço das Nações Unidas eram russos, e tinham sido subcontratados por uma firma canadiana que tinha ganho o concurso internacional. Os canadianos pagavam os serviços à entidade russa subcontratada, mas corrupção grassava na estrutura superior russa e as tripulações no terreno não recebiam os respetivos vencimentos. A insatisfação dos tripulantes russos no aeródromo de Luena (antigo Luso) era tal, que havia uma ameaça de greve aos voos de apoio às eleições. O responsável local do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) – William Scott – tentou apaziguar os nossos russos, prometendo interceder por eles na estrutura superior da ONU, e passou a oferecer-lhes três refeições diárias e aguardente local – caxipembe – gratuitas até ao final da missão.
Surpreendentemente, a Caxipembe à borla pareceu ser um argumento de peso naquela resolução de conflito. As serenatas dos dias seguintes foram um sucesso, e até apareceu e uma versão moscovita de Elvis Presley, acompanhado à viola, com a voz grave e arrastada pela caxipembe. Foi nessa missão da ONU, no antigo AM-44 da FAP, que ouvi “Love me tender”, de Elvis Presley, cantado em russo; e gostei!
Aliás, as noites dos nossos russos eram geralmente bastante “regadas”. Bebiam para comemorar algo que tivesse corrido bem; bebiam para marcar algo que tivesse corrido mal; bebiam por quase todos os motivos e, quando não havia motivo algum, bebiam para criar um. Mais de uma vez tive de me assegurar que, no dia seguinte, antes do nascer-do-sol, estavam todos “suficientemente sóbrios” quando iam para os helicópteros, o que era um desafio. Lembrei-me de uma história publicada num jornal no tempo da guerra fria, onde se reportava que uma tripulação de um carro de combate T-55 soviético, durante um exercício na Polónia, tinha trocado o tank por uma grade de garrafas de vodka. Era uma questão cultural e não havia nada que eu pudesse fazer; a não ser assegurar-me que os meus tripulantes andavam numa linha reta quando se dirigiam para os helicópteros.
Voavam por instinto e não segundo os procedimentos. A segurança de voo era uma preocupação minha, mas, aparentemente, era mesmo só eu que tinha isso em consideração. A fim de cumprir com as necessidades das autoridades civis e da ONU, as aeronaves que eu geria saiam em média quatro vezes por dia. Essa situação era do agrado das tripulações russas porque, aparentemente, quanto mais voassem mais dinheiro ganhavam; quando recebiam … se recebessem! A segurança de voo era considerada um faits divers dos ocidentais; algo que vinha nos livros, mas que não era para levar demasiado a sério. Contudo, o cansaço das pessoas e a fadiga de materiais das máquinas começava a acusar os excessos, deixando-me deveras apreensivo com a sobrecarga de trabalho.
– “Não te preocupes Paulo” – dizia-me Anatoli Petrov, o único russo que falava inglês. – “Nós voávamos muito mais do que isto no Afeganistão, e lá havia gente que nos queira deitar abaixo. Pelo menos aqui não fazem fogo sobre nós!”
– “Pois não Anatoli,” – respondia-lhe – “mas o chão de Angola é tão duro quanto o do Afeganistão, e eu não quero que vocês provem a densidade do terreno!”
Cancelei vários voos, recusei outros, e discuti muitas vezes nas reuniões de coordenação com as autoridades eleitorais, para zelar que nenhuma das tripulações tivesse um encontro não controlado com o solo angolano.
Os nossos pilotos tentavam satisfazer as necessidades da campanha aérea, carregando o máximo de pessoal e material possível em cada voo. Embarcavam tudo o que podiam e tentavam descolar. Depois iam retirando “carga” até o helicóptero (MI-17) conseguir elevar-se nos ares; e seguiam viagem.
Peso & centragem a “olhometro”.
Certa manhã, após os nossos meios aéreos terem partido como um bando de pássaros, retirei-me para o cantinho da ONU na placa do aeródromo. Sentei-me num caixote para relaxar um pouco e liguei o meu walkman para ouvir uma música suave. A música arrancou com uma sonoridade pastosa e arrastada, sendo um primeiro sinal que as pilhas do meu walkman estavam gastas. Abri o aparelho e iniciei o procedimento de troca das pilhas. Nisto, um miúdo que andava por ali a catar desperdícios de Jet A-1, aproximou-se. O rapaz estava descalço e todo sujo, mas parecia observar cuidadosamente todos os meus movimentos. Quando eu me preparava para guardar as pilhas velhas no bolso do fato de voo, dirigiu-me a palavra:
– “Sôr, dá-me as pilhas.” – Pediu ele.
– “Companheiro, estas pilhas estão gastas, já não funcionam, perderam a eletricidade. Entendes?” – Respondi-lhe.
– “Não faz mal, Sôr. Dá-me as pilhas, por favor.” – Insistiu a criança.
– “Oh rapaz, eu dou-te as pilhas, mas elas não te vão servir de nada. Não consegues tirar nada daí de dentro.” – Retorqui enquanto lhe dava as três pilhas AA do leitor de cassetes portátil.
– “Tché … – exclamou ele – consigo, consigo! Abro-as com uma catana e meto-as dentro de um panelo com fruta e farelo de milho a fermentar, para fazer a caxipembe. O ácido das pilhas apressa as coisas e amanhã o caxipembe já está pronto para eu vender no bazar!”
– “Ora toma!” – Exclamei em voz alta – “Acabei de receber uma aula de química aplicada, de um puto com 12 anos! Então é assim que vocês fazem aguardente expresso?” – Perguntei.
Mas a criança já tinha “descolado” em direção aos portões do aeródromo, com as três pilhas numa mão e uma lata com Jet A-1 na outra.
Fiquei apreensivo com a poderosa aguardente que eu tinha estado a beber, com os meus amigos russos, numa das serenatas dessa semana. Será que também tinha sido feita à base de aceleradores de fermentação, do tipo: ácido sulfúrico? Pela forma como os russos a consumiam à noite, quando chegassem a Moscovo teriam de trocar de fígado! A partir desse dia, passei a beber só bebidas estrangeiras engarrafadas no exterior, ou de origem muito bem recomendada.
Caxipembe – aguardente de milho – expresso
Ainda tentei avisar os tripulantes russos sobre a forma duvidosa como aquela beberagem era feita, mas para eles pouco importava como aquilo era feito, desde que fosse de borla estava ótimo; e o “Elvis” continuou a cantar em russo nas noites quentes angolanas.
História extraída do livro “Angola 92 – Diário de um Capitão” que recorda a primeira missão da Força Aérea Portuguesa para as Nações Unidas, feita para apoiar as primeiras eleições livres Angolanas.
Celebra-se no dia 23 de outubro o primeiro voo de Santos Dumont, considerado por muitos como o primeiro voo de um “mais pesado que o ar” e por isso o Dia do Aviador.
Efetivamente, embora a primeira máquina a elevar-se nos ares tenha sido construída pelo irmão Wright nos Estados Unidos (17 de dezembro de 1903), essa aeronave foi catapultada, não cumprindo um dos pré-requisitos de ter a capacidade de descolar, voar e aterrar pelos seus próprios meios. Desta forma, a primeira aeronave que verdadeiramente cumpriu os parâmetros e fez um voo considerável (para a época) foi o 14-Bis de Santos Dumont, em 23 de outubro de 1906.
É oficial, já temos em Portugal o primeiro “Rinoceronte” da Esquadra 506, protocolarmente entregue à FAP. Um KC-390, caracterizado como sendo já uma aeronave de 5ª Geração.
Há uma coisa na aviação, que distingue os peritos dos “amadores”. Um perito tem de ter o conhecimento dos livros (curso), e, posteriormente, a qualificação na execução prática desses conhecimentos, devidamente certificada por uma autoridade na matéria. Os amadores (ou treinadores de bancada) podem até ser conhecedores das matérias no campo teórico/académico (até mesmo o curso), mas nunca “lá estiveram”, ou alguma vez fizeram algo de concreto na execução dessas matérias. É a “qualificação” que faz a diferença, e esta ganha-se e perde-se no terreno, quando não se pratica regularmente o assunto em questão, porque o ritmo de mudança (em todas as áreas) é tal que, o modo como se fazia algo há uns meses poderá não estar correto na atualidade.
ESTOU FARTO DE VER TREINADORES DE BANCADA a comentar tudo e mais um par de botas!
Bósnia, Iraque, Afeganistão, Gaza, etc. são uma sequencia de de julgamentos errados de lideres políticos que colocam os seus ideais (ou interesses) políticos à frente das vidas que deveriam proteger.
Todos sabemos como começar uma guerra, mas ninguém sabe como a mesma irá acabar. As Leis da Guerra e os Direitos Humanos são um mantra que se deixa de ouvir quando os canhões começam a disparar.
(artigo publicado na revista Combatente de setembro 2023 – Liga dos Combatentes)
A meados deste ano de 2023, a propósito da guerra na Ucrânia, a comunicação social portuguesa começou a falar muito de “bombas de fragmentação”. Qualquer pessoa com o mínimo de experiência militar é levada a pensar em granadas de mão, ou de artilharia, desenhadas para espalhar uma grande quantidade de estilhados em redor do ponto de impacto. Porém, não era isso que os jornalistas tentavam reportar. O que a comunicação social queria referir eram as bombas e misseis “cluster”. A tradução da palavra “cluster” para português é “grupo”, ou “conjunto”, e o arsenal em questão são as armas de dispersão contendo no interior submunições. Essas armas, que podem ser lançadas por sistemas terrestres, navais ou aéreos, atuam elas próprias como plataformas aéreas que, antes de impactarem no solo, se abrem e largam dezenas (ou centenas) de submunições, designadas de “bomblets”. São essas submunições, ou bomblets, que explodem individualmente quando chegam ao solo, cobrindo uma extensa área do campo de batalha.
Em Portugal, os jornalistas começaram a chamar bombas de fragmentação a estas armas devido a uma tradução duvidosa do motor de busca Google na internet.
A utilização deste tipo de armas é proibida num grande número de países, de forma voluntária, através de um acordo internacional (convenção de 2008). No entanto, nem todos os países assinaram esse acordo, e alguns dos que assinaram nem sequer ratificaram a convenção nos respetivos parlamentos, pelo que algumas dessas assinaturas carecem de validade. De facto, somente 123 dos 193 países da ONU assinaram a convenção. Ou seja, mais de um terço dos países da ONU não assinaram a convenção contra as armas cluster. Assim, falar de bombas de dispersão de submunições como armas proibidas é uma falácia, especialmente quando a China, os Estados Unidos e a Rússia (três dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU), não assinaram a convenção.
Fig. 1 – Explicação de uma míssil/bomba com submunições.
Nos conflitos surgidos com a cessação da ex-Jugoslávia estas armas foram muito usadas por todas as partes opositoras.
Recordo a madrugada do dia 1 de maio de 1995, quando fazia uma patrulha auto das Nações Unidas pelo Norte da Croácia tendo como companhia um camarada neozelandês. Subitamente, próximo da região sérvia conhecida por Sector Oeste, começaram a cair granadas de artilharia em nosso redor e fomos abruptamente surpreendidos pelo início do ataque das forças croatas à Krajina Sérvia deOkucani. Tinha começado a Operação Flash, que viria a destronar a superioridade militar sérvia nas Krajinas da Croácia, com reflexos na Bósnia Herzegovina. Depois de ultrapassarmos vários perigos resultantes do fogo cruzado, lá conseguimos regressar a Zagreb e ao Quartel-General da UnitedNations Protection Force (UNPROFOR).
Pelas 11 horas, enquanto procurávamos algumas respostas no meio de uma monumental confusão, começaram a tocar a sirenes de ataque aéreo por toda a cidade de Zagreb. Parecia uma cena da Segunda Guerra Mundial. Havia uma sirene em cada bairro da Cidade e, quando soava o alarme, todas juntas faziam um coro arrepiante. Estávamos acostumados a ouvir esses sons nos filmes de Hollywood, mas sentir ao vivo o ininterrupto ondular das sirenes, numa urbe de dimensões consideráveis, em pleno coração da Europa, era outra coisa! Nos filmes, as sirenes tocam alguns segundos e a imagem passa à cena seguinte; na vida real, “elas” não se calam e os seus uivos incutem pânico. Mesmo as pessoas mais experientes começaram a reagir e atuar de uma forma precipitada. A ordem para usar os capacetes e coletes “na zona de combates” foi imediatamente corrigida para “uso permanente”, dentro e fora de edifícios.
Nessa altura recebi a tarefa de ir com o meu camarada neozelandês fazer a investigação do que se passava na cidade.
– “Rapazes – disse-nos o chefe de operações dos Observadores Militares da ONU – parece que alguma coisa aterrou lá para os lados do Aeroporto, e não foi um avião. Levem um intérprete que esteja disponível e regressem com um reporte detalhado … hoje!” – Instruiu secamente o coronel mal-humorado.
Na sala da situação operacional estava um intérprete a atender telefones, de quem se dizia ter muitos contactos junto das autoridades croatas. Dragan estava entediado e queria desesperadamente sair daquele ambiente fechado. Perguntei-lhe se ele arranjaria um substituto que o libertasse, para vir connosco ao Aeroporto à procura de zonas de impacto de mísseis. Ele ficou radiante com a proposta e respondeu:
– “Claro que sim! Não conhece a Lei de Lavoisier para os Balcãs? – Nada se ganha, nada se perde, tudo se negoceia. Dê-me cinco minutinhos para arranjar um substituto.
Decidimos ir consultar a Esquadra de Polícia responsável pela zona do Aeroporto. Fomos recebidos pelo chefe da esquadra, que demonstrou saber do ocorrido.
– “Caíram sete rockets Orkan M-87 em Zagreb. Todos disparados pelos sérvios da Krajina. Alguns impactaram no centro da Cidade e outros nos campos rurais próximos do Aeroporto”. – Explicou-nos o comissário. – “Como devem de saber, estes mísseis têm submunições que espalham pequenas bombas nos terrenos periféricos do alvo. Em resultado, temos a área vedada ao público nos terrenos agrícolas que circundam o Aeroporto, porque está infestada com submunições – bomblets – por explodir”.
Em seguida atribuiu-nos um agente da polícia com instruções para nos escoltar até ao local dos impactos na zona do Aeroporto. Quando chegámos ao local parqueámos o carro e seguimos a nossa escolta a pé.
A zona rural de Pleso, vizinha às pistas do Aeroporto de Zagreb, tinha um conjunto de moradias isoladas adjacentes aos campos agrícolas. Num raio de 100 metros do local que teria sido o ponto de um dos impactos todos os telhados estavam danificados, expondo buracos nas telhas com cerca de um metro de diâmetro. Os vidros das casas estavam partidos e nos arruamentos havia pequenas crateras com diâmetros diferentes conforme a composição do pavimento. No caso das estradas campestres de terra batida atingiam cerca de 30 cm de diâmetro e 10 cm de profundidade. No piso de alcatrão da estrada principal tinham a metade da dimensão. Os mísseis Orkan eram disparados de lançadores múltiplos de foguetes, e cada um podia conter lá dentro mais de 200 bomblets. Pelo aspeto das pequenas crateras, os explosivos não deveriam de ser demasiado potentes, mas eram absolutamente letais para pessoas desprotegidas.
A zona estava fechada ao público, e mesmo os residentes estavam a ser evacuados até as suas propriedades terem sido visitadas e limpas pelos peritos em “minas e explosivos”.
Por todo o lado havia pequenos objetos no chão, já marcados pela polícia, que se assemelhavam – em tamanho, formato e cor – aos antigos contentores cilíndricos dos rolos de filme fotográfico. Tinham a particularidade de exibirem uma fita de tecido a sair de uma das bases do cilindro. Eram bomblets que não tinham explodido ao primeiro contacto com o solo, e passavam a ser designadas de UXO (Unexploded Ordnance – munição viva por explodir). Acima de tudo, tínhamos de ter muito cuidado com as fitas, porque eram o mecanismo de ativação do explosivo. Quando as bomblets saiam dos misseis as fitas começavam a desenrolar-se com o atrito do ar e, quando estavam completamente desenroladas, armavam o mecanismo de explosão. Era notório que a muitas das bomblets que nos rodeavam bastava um pequeno toque, ou uma briza de vento nas que estavam penduradas em árvores, para rebentarem.
Entrámos nos terrenos hortícolas vizinhos a uma das habitações, onde estava uma cratera do impacto do corpo do míssil principal. Teria aproximadamente um metro e meio de profundidade e um metro de largura. No fundo da cratera estava à vista o pedaço de um míssil. Viam-se as alhetas da cauda, o que sugeria que o resto da fuselagem estaria enterrada na terra fofa previamente lavrada. Do lado de fora da cratera havia muitos fragmentos metálicos feitos de uma liga muito leve, e mais bomblets por explodir. O espalhamento do material denunciava o sentido de aproximação ao ponto de impacto.
A cerca de 100 metros daquele local, o cenário repetia-se com outro impacto de um segundo Orkan, e mais além um terceiro. Toda a região estava ponteada de vestígios de pequenas explosões, ou pontos negros de bomblets por explodir. O meu companheiro neozelandês brincou dizendo:
– “Bom, …, pelo menos não temos de andar a espreitar para dentro das crateras para saber o que isto é, conforme mandam os manuais da análise de crateras.”
Fig. 2 – Cartoon sobre a análise e avaliação de crateras de impactos de artilharia
Mas o próprio corpo do míssil, embora enterrado, era perigoso porque ainda podia conter lá dentro algumas bomblets por explodir.
Atuei segundo o lema dos analistas militares: – “Não assumas nada, não acredites em ninguém e reverifica tudo”. Contudo, não havia dúvidas de que se tratavam de misseis Orkan, até porque numa das alhetas estava a inscrição “M-87; TC MC; NS 9002”. Estranhei as inscrições das letras “N” e “S”, uma vez que não fazem parte do alfabeto cirílico dos Sérvios. Registei esse detalhe, mas não havia dúvidas do rumo de aproximação, denunciado pelo rasgar da terra antes de penetrar o solo, que vinham da direção do Setor Sérvio, o qual ficava a cerca de 40 quilómetros, exatamente a distância que aquele sistema de armas normalmente cobria.
No segundo Orkan havia um ferido civil; um velho agricultor que estava a tratar da sua horta quando o Orkan caiu. Ainda ajudámos na sua evacuação, porém o idoso estava mais destroçado pelos prejuízos materiais na sua propriedade do que pelos ferimentos recebidos. Uma bomblet atingiu em cheio a versão Jugoslava do seu Fiat 600 – um Zastava – destruindo-o por completo. Todos os vidros da habitação estavam partidos e metade do telhado estava desventrado. Parte da fuselagem do míssil tinha cortado umas árvores de fruto do seu quintal e havia bomblets penduradas pelas tiras de tecido nos ramos das restantes árvores. Tudo em redor tinha pequenos objetos negros com a marcação de UXO. Até no algeroz do telhado havia uma bomblet pendurada, balançando perigosamente ao vento pela fita extratora. Infelizmente, as poucas arvores e produtos hortícolas que sobraram teriam de ser destruídos, para se livrarem dos UXOs que lá estavam pendurados.
Tirámos medidas, fizemos o esboço de um desenho explicativo e tentámos responder aos tradicionais 5W (what, who, where, how, when): “o quê, quem, onde, como, quando”. O sexto “W” – o Why? (porquê?) – parecia ser obvio: retaliação do ataque ao Setor Oeste. Depois regressámos ao QG para reportar o que tínhamos visto. Agora era a altura das equipas de minas e armadilhas (Explosive Ordnance Disposal – EOD) irem lá “limpar” o terreno dos explosivos.
Cerca de oito meses mais tarde, quando o primeiro contingente português entrou na Bósnia Herzegovina ao serviço da OTAN, na missão Implementation Force – IFOR – viríamos a perder dois camaradas paraquedistas, e um terceiro ficou gravemente ferido, exatamente com a explosão de uma dessas bomblet, abandonada por explodir em Sarajevo. Os nomes desses dois camaradas (Primeiros Cabos Paraquedistas Alcino Mouta e Rui Tavares) estão gravados na muralha do Forte do Bom-Sucesso, em Lisboa, e num monumento numa praça pública da cidade de Doboj – na Repúbika Srpska (Républica Sérvia da Bósnia e Herzegovina) – para não nos esqueçamos deles.
Fig. 3 – Murada do Forte do Bom-Sucesso
Os detalhes da presença portuguesa durante o último ano de guerra na Bósnia Herzegovina e da guerra de independência da Croácia, poderá ser encontrado no livro: “Bósnia 95 – Guerra aérea em manutenção de paz”, publicado pela editora Lisbon Press, em:
Com todos os conflitos que decorrem neste momento, já alguém se preocupou em contabilizar e publicar, de forma regular, a quantidade de efeitos prejudiciais que as armas têm no meio ambiente? Já alguém se preocupou em considerar que a destruição do ambiente provocada pelas guerras também deveria ser considerado um crime de guerra (a prazo) atribuível a quem iniciou as hostilidades?
Qualquer dia para se brincar na areia temos de usar técnicas, táticas e procedimentos de guerra química.
A Associação da Força Aérea (AFAP) publicou no seu Boletim nr. 85 a história corrigida do filme “Atrás das linhas do inimigo”, com o sub título “a História verdadeira que Hollywood não contou”. Recorda-se o abate de um F-16 USAF por forças sérvias, em 1995, iniciando toda uma série de eventos que levaram ao massacre de Srebrenica.