Limpa-neves em Luanda – inspiração para cartoonista

Outubro de 1992 – Num voo de C-130 que levou mais de 20 horas a percorrer o trajecto Lisboa x Luanda, com duas paragens técnicas de uma hora em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, finalmente estávamos a sobrevoar a Capital Angolana.

O nosso Hercules evoluiu sobre a Cidade, a fim de se posicionar melhor para a aterragem. A manobra permitiu-nos observar a verdadeira dimensão da urbe. Para além das zonas da baía e do centro da Cidade, com os seus edifícios altos, avenidas amplas e bairros com bonitas vivendas coloniais, havia uma outra Luanda; um enorme musseque, que se estendia a perder de vista, constituído por trilhos sinuosos de construções térreas feitas de barro, onde viviam mais de 70% dos dois milhões de pessoas que na altura habitavam em Luanda.

Durante a aterragem observámos que o aeroporto estava militarizado, com muitas antenas de radar, e outros equipamentos com aspeto bélico, distribuídos entre as placas e as pistas. Contudo, aquilo que mais me atraiu a atenção foi um conjunto de três veículos enferrujados que jaziam para além da soleira da pista. Eu reconhecia perfeitamente aquelas máquinas, mas não conseguia ligar o objeto com o local ou a função. Estava perante uma cena que atraiçoava a forma estereotipada de interpretar o que me rodeava. Era uma daquelas sensações de ver um barco encalhado nas areias de um deserto. Fiquei particularmente curioso acerca daqueles equipamentos de aeródromo que, pelo aspecto enferrujado, não deveriam ter tido muito uso. Quando desembarcámos, fomos gentilmente recebidos na placa por uma delegação da Embaixada Portuguesa em Luanda e representantes da ONU. Perguntei ao pessoal militar da Embaixada o que eram aqueles estranhos veículos que apodreciam no final da faixa. Foi-me respondido que eram “limpa-neves”, oferecidos pela (antiga) ajuda Soviética.

 –“Limpa neves? Em Luanda?” – Perguntei (retoricamente) contendo uma gargalhada, para não ofender os presentes.

 –“Sim, para os Soviéticos qualquer aeroporto que se preze tinha de estar dotado com limpa-neves. O local geográfico era um mero detalhe. Eles mandaram tanto material para ajudar Angola que “mais limpa-neves, menos limpa-neves”, ninguém reparou na coerência da oferta.”

Claro que aquelas máquinas nunca foram usadas e apodreceram no local onde tinham sido descarregadas.

Era a definição de Surrealismo na versão limpa-neves. Estas máquinas fora de contexto surpreenderam-me e despertaram a minha veia humorista. Assim que tive oportunidade e sossego, fiz o meu primeiro rascunho de cartoon sobre uma missão operacional. A partir dessa altura passei a observar e desenhar todas as situações que fugissem à banalidade do quotidiano, complementando os meus diários de missão.

Por outro lado, como viria a descobrir mais tarde, o tipo de atividade que iria desenvolver na ONU inibia que se tirassem fotografias. Havia mesmo instruções específicas proibindo o uso de máquinas fotográficas. Essa restrição, que eu viria a encontrar noutras missões da ONU, procurava evitar mal-entendidos por parte das fações em conflito, que viam a atividade fotográfica como uma forma velada de recolha de informação. Os cartoons eram uma alternativa pacífica de recordar graficamente a vivência no terreno, sem arranjar problemas com as forças em conflito.

UN Mission in ex-Yugoslavia – UNPROFOR (1992/95)

At the start of 1990 decade, Yugoslavia imploded in a fratricide war. It was a horrible war that took the life, or disappeared with, of about a quarter of a million people. Furthermore, it was estimated that approximately one million people lost their houses, becoming displaced from their original region, living in very poor conditions, and another two million became refuges in some other country. Many of the crucial infrastructures of the former Yugoslavia territory was destroyed.

From 1992 to 1995, 11 541 people died in the besieged City of Sarajevo. Two decades after the beginning of Bosnia Herzegovina’s conflict, on the 6th April 2012, Sarajevo honored its 11 541 deceased citizens, in a street concert called “Why are you not here?” To visualize there immensity of the number, they placed on one of Sarajevo’s main avenue a red chair for each dead person.

Titova street in Sarajevo – the 20th anniversary of the start of the Bosnian war, April 6, 2012. Photo – REUTERS/Dado Ruvic

When the Yugoslavian conflict started, the United Nations reacted promptly and deployed blue helmets to the site –The United Nations Protection Force, UNPROFOR – a conflict characterized as the worst conflict in Europe since the end of World War Two. UNPROFOR’s blue helmets tried to mitigate the problems of the conflict in Croatia, and (later) in Bosnia; however, it didn’t work very well. The UN had deployed a Peacekeeping force, with a peacekeeping mandate, without have a Peace to deal with. The peacekeepers were sent to the middle of an ugly war, which appeared no one was interested in stopping or reducing.

For many, UNPROFOR was an operational failure, because the UN was not solving the problem (at least … not in time). For others, it was the possible thing to do; trying to gain time, with least cost of lives, in order to reach an enduring agreement. For me, UNPROFOR was crucial for the conflict not to escalate to a full regional war. Not only that; UNPROFOR  laid the bases of the new UN posture for Civilian Protection in future NUN missions, and the entire UN “Concept of Operations”  for future missions. Something that ended-up saving many, many, lives in the years to come. I’m proud to have been UNPROFOR blue helmet.

“Compensação de sangue” da ONU na UNPROFOR

No dia 10 de janeiro de 1995, apresentei-me nos portões do Quartel-general das Nações Unidas (UNPROFOR) em Zagreb, a fim de incorporar a Unidade de Observadores Militares (UNMO) que monitorizavam o desenvolvimento do conflito na ex-Jugoslávia. Comigo estava um camarada da Força Aérea Portuguesa, já veterano na missão, que gentilmente acedeu a acompanhar-me no processo de “check-in”.

As instalações da ONU ocupavam um quarteirão inteiro da Cidade, cercadas por muros altos com um aspeto austero. Cá fora, no passeio junto à estrada, os populares tinham construído um muro de tijolos soltos, com cerca de um metro de altura, que quase dava a volta completa às instalações da ONU. Estavam ali milhares de tijolos. Em cada um daqueles tijolos estava escrito o nome de alguém que tinha morrido na guerra, desde 1991. O meu primeiro pensamento foi que se tratava de uma “instalação artística” contra a guerra, mas cedo percebi que era um protesto contra a ONU, por não ter evitado aquelas mortes. A população croata esperava que a UNPROFOR os ajudasse na sua luta contra os sérvios, tendo visto as suas espectativas goradas. A UNPROFOR era imparcial naquele conflito, e não tinha vindo para fazer a Guerra mas sim para manter a Paz. A missão dos capacetes azuis era separar os beligerantes, embora isso não estivesse a funcionar.

o “Muro da vergonha de Zagreb – foto de Jesper Luckmann

Orientado pelo meu camarada, iniciei o check-in da UNPROFOR, apresentando-me no balcão respetivo com um sorriso e uma atitude entusiasta.

– “Bom dia, sou o capitão Paulo Gonçalves, da Força Aérea Portuguesa, acabei de chegar e venho para os Observadores Militares.” – Disse, dirigindo-me à silhueta do outro lado do vidro baço.

– “Português?! …, Paulo Gonçalves?! …, OK, está aqui na lista sim senhor! Bem-vindo à UNPROFOR. Leia este documento, é o seu testamento. Identifique o beneficiário do seu seguro de vida e assine, em triplicado, em baixo. Depois falamos do resto.”

O primeiro procedimento da UNPROFOR era assinar um testamento pré-redigido, declarando a quem deixaria os meus bens e quem viria a receber a “compensação de sangue”, que a ONU pagava em caso de morte ou de ferimento grave.

–”Caramba!” – Exclamei para o veterano Luso que me acompanhava –”ainda não coloquei as malas no chão e já tenho de assinar um testamento?! Um começo encorajador; sem dúvida.”

Compensação de sangue ONU
Tradução: “Bem-vindo à UNPROFOR, por favor identifique o familiar que vai receber o dinheiro da sua “compensação de sangue” e assine o seu testamento, em triplicado.”

 – “Não te preocupes” – disse o meu camarada, tentado tranquilizar-me –”é um formalismo. Eles fazem-no logo no início do check-in para cobrir qualquer acidente que te possa acontecer desde já.”

O procedimento era tétrico, mas necessário e deveria ser feito logo no início, para cobrir qualquer acidente que pudesse ocorrer. Pena que esse dinheiro tivesse que ser pago a centenas de capacetes azuis porque, embora a UNPROFOR fosse uma missão de apoio à Paz, houve muita gente das Nações Unidas a ficar seriamente ferido durante a missão; mas as mortes em serviço (KIA – killed in action) era o que mais nos afetava.

Desde a sua implementação (início de 1992) até ao seu términus (finais de1995), a UNPROFOR sofreu 213 fatalidades das quais: 198 foram militares dos contingentes internacionais, seis foram oficiais UNMO desarmados, três foram polícias da CIVPOL, outros três foram civis do pessoal internacional da ONU, tendo ainda morrido mais três civis contratados localmente pela ONU.

Missão UNDP – Angola 1992 – Excesso de confiança mata!

Para se avaliar corretamente uma situação temos de nos colocar fora dela. Temos de a ver à distância, para ter a noção da globalidade dos fatores que a afetam. Quando se está demasiado embutido nos eventos que nos rodeiam, o único distanciamento que permite essas avaliações é o cronológico. Temos de deixar passar algum tempo e refletir sobre o assunto para vermos onde errámos e introduzir correções. Por vezes, o fator “sorte” (ou a ausência dela) joga demasiado forte nesta equação.

Certo dia, numa missão da ONU em Angola (1992), um grupo de soldados desmobilizados apareceu no Aeródromo de Luena em busca de um voo para fora dali. Ao verificarem que não teriam qualquer hipótese de apanhar “uma boleia” para Luanda, aqueles desmobilizados (mas não desarmados) começaram a actuar em desespero de causa e abriram fogo com as suas armas.

Comigo, na placa das Nações Unidas, estava um pequeno grupo de jornalistas holandeses que tinham vindo cobrir as eleições na Província do Moxico. Ao ouvirem os disparos das armas automáticas, os jornalistas entraram em pânico e atiraram-se ao chão. Em meu redor, havia gritos em Holandês e em Inglês. Ouvi mesmo alguém a chorar. Eu continuei a trabalhar, de um lado para o outro, organizando as bagagens de embarque, falando pela rádio com o pessoal da torre para saber a estima do nosso avião, procurando pelo nosso pessoal de apoio em terra para me ajudar nas tarefas, etc. Os tiros eram coisa corriqueira por ali, e eu tinha muito assunto para resolver antes da chegada do nosso C-130. O som dos disparos à minha volta funcionava como se fizesse parte de um filme … e tudo aquilo eram figurantes das filmagens.

De repente, senti algo a bater no chão, junto de mim com muita força, e só depois ouvi o som de um disparo. Aquele tiro tinha sido dado na minha direção. Como a bala voava mais rápido que o som, eu só ouvi o disparo da arma depois do projétil ter atingido o chão mesmo em frente aos meus pés. Logo a seguir senti como que um sopro de ar no lado direito da cara e ouvi um assobio. De novo, o som de um tiro veio logo a seguir. Em décimas de segundos o meu cérebro avaliou e interpretou toda aquela informação, surgindo com uma resposta: – Aqueles disparos isolados não eram balas perdidas; alguém estava a disparar na minha direcção, com a intenção de me alvejar. Acho que corei quando me apercebi da dimensão da minha estupidez.

Imitando os jornalistas holandeses, atirei-me ao chão procurando esconder-me por detrás de alguns volumes que ali estavam para embarcar. Os caixotes de papelão não iriam impedir as balas de me atingir, mas pelo menos ocultavam a minha silhueta ao atirador.

Nessa mesma altura começou um arraial de tiros vindos da entrada do aeródromo. Os Ninjas (polícia de choque Angolana) tinham regressado ao local. Quando tudo acabou, estavam várias pessoas estendidas no chão da placa, inertes, e a situação resolvida. Os presos e os feridos foram levados pela polícia antimotim e o ambiente acalmou de novo.

Ouviu-se o ronco surdo de um C-130 a aterrar, seguido do som intenso do procedimento de travagem com os motores em reverse. Era o nosso avião que chegava. Quando os holandeses subiram a bordo, tinham os olhos vermelhos de terem estado a chorar. Eu tinha o semblante aparvalhado de ter escapado, por muito pouco, a levar um tiro na cabeça. Tudo por ter cometido um erro comum neste tipo de operações – baixar a guarda devido à rotina.

Registei a minha lição número quatro, em ambiente de conflito:

Lição 4: – “O Excesso de Confiança mata!”

Provavelmente devido às responsabilidades atribuídas, ou a alguma inexperiência de Teatro Operacional (TO), as minhas preocupações de segurança física estavam concentradas no resto do pessoal do PNUD e não tanto na minha própria segurança.

A experiência – ou o saber dela feito – permite uma antecipação do distanciamento cronológico, numa sensação “deja vue”, uma vez que o analista salta no tempo para outras situações que já vivenciou e que o auxiliam na tomada de decisões rápidas na altura dos acontecimentos.

As Lições Aprendidas são essenciais para o cabal desempenho, em segurança, neste tipo de operações, fechando o ciclo do provérbio da aviação que dita:

– “Na sociedade civil, quanto mais de vive mais se aprende. Na aviação, quanto mais se aprende mais se vive!”

Croat Independence War – Operation Storm

On the 4th of August 1995, at 05H00, on the very same morning I was supposed to drive a new UN vehicle from Zagreb to Sarajevo via the South Krajina, the Croatian Army and Special Police Forces launched Operation Storm – Operacija Oluja – and attacked Knin.

The Serbs had already lost the Sector West Krajina in May 1995, but the remaining Serb Krajina represented about 15% of the Croatian territory, with an area of more than 9.500 square kilometers.

The Serbs in Knin tried to put up a fight but the Croats were much better equipped. The Croats also had higher moral and unexpected external supporters. The Bosnian Army 5th Corps located in Bihac – in the rear of the Serb Krajina – joined forces with the Croats and attacked the Serbs from behind.

Furthermore, it seemed that the US Navy carriers in the Adriatic had previously launched their fighter bombers, to attack and destroy the Serbian Air Defence radar and missile systems, providing to the Croatian Air Force complete Air Supremacy over the Krajina territory.

The Croatian Air Force had 17 MIG-21 fighters, three fix wind transport aircraft, five attack helicopters MI-24, nine transport helicopters MI-8 and two recognizance aircraft.

The Krajina Serbs had not only lost their radar warning and anti-aircraft missile systems, they also didn’t have any aircraft. A short time before, fearing further bombings from US fighter jets, the Krajina Serbs had transfer 20 jet aircraft to the Bosnian Serb Air Base of Banja Luka. Their plan was not only to avoid having the aircraft destroyed on the ground by the American Air Power, but also to be able to intercept and engage the Croatian MI-21 flying impugn inside the No Fly Zone. 

At 18H45 of that 4th of August 1995, Zagreb’s air raid warning sirens howled again. A number of Serbian fighter aircraft had taken-off from Banja Luka – in Bosnia – and were flying towards Zagreb. However, the Serbian fighters did not attack Zagreb. Their target was the oil storage structures in the former Sector West, and a factory of chemical products in Kutina, 85 kilometres way from Zagreb.

The possibility of a chemical cloud to be hovering Zagreb was a serious threat. The Serbs knew it, and used it as a psychological effect.

The following threat was to bomb with missiles the nuclear plan of Krsko, in Slovenia, about 40 kilometers away from Zagreb.

The Serb airplanes did attack the chemical factory, but the operation was not successful and there was no serious damage in the infrastructure.

As far as attacking the Slovenian nuclear plant … that was just bluffing.

Meanwhile, the Croats announced that Operation Storm was going to be the biggest combat operation in an European country, since WW II.

Up in the skies of Krajina, while the NATO fighters were making sure there was no Serbian anti air defences, the Croat MI-24 gunship helicopters were hammering the Serbian tank positions.  Simultaneously, a dozen of Croat MIG-21 jet fighters attacked the Serbian communications’ systems. The Krajina Serbian forces were blind, deaf and dumb; they weren’t able to use the military resources they had at their disposal.

At 12H15 of the 5th August 1995, the Croatian forces entered Knin, finding the City practically deserted. All the Serbs had sought refuge in Bosnia.

On the 6th of August isolated gunshots were heard in the deserted neighborhoods of Knin. It was the “opening of human hunting season”; the Serbs were on the target list. Profiting from the leverage of their success in the attack to Sector South, the Croatian forces moved on and attacked the Krajina’s Sector North, which was much closer to Zagreb. On the 7th of August the Croat victory was consolidated. For the exception of Eastern Slavonia, there was no more Serbian Krajinas!

The air campaign of Operation Storm lasted approximately 100 hours. During that period, the Croatian Air Force made about 200 sorties, distributed by 67 jet fighters missions for Close Air Support to ground forces, 12 helicopter attacks against tank positions, 7 recognizance missions, 4 Combat Air Patrol missions and over 110 sorties of helicopters in support of logistics and MEDEVAC.

Throughout Operation Storm, the Croats had several aircraft damaged by the Serbian anti-aircraft artillery, but no aircraft was shot down and crashed.

História aeronáutica Portuguesa -O A-7P

O A-7 Corsair II, foi a resposta da fábrica Vought (1965) a um concurso lançado pela Marinha Norte-americana para a aquisição de um caça-bombardeiro que fosse ágil e robusto com manutenção fácil e económica, com grande autonomia e capacidade de transporte de grandes quantidades de armamento tecnologicamente avançado. O A-7 foi a primeira aeronave a ser dotada de um HUD (Head Hup Display).

O A-7 foi introduzido na FAP, em 1981 (na BA-5, nas Esquadras 201 e 302 – Falcões, e 304 – Magníficos), com o intuito de colmatar o abate da frota dos F-86F Sabre, e, simultaneamente, que introduzir novas tecnologias na FAP.

A fim de fazer a conversão dos aviadores portugueses para esta nova aeronave, a Marinha dos Estados Unidos “emprestou temporariamente” uma aeronave bilugar (TA-7 nº154404), a qual mantinha as cores da US Navy (branco) tendo por isso ficado conhecida como “a Pomba Branca”. A “pomba Branca foi devolvida à US Navy em 1985.

A versão do A-7 português era francamente melhorada que as suas congéneres anteriores, tendo recebido a letra “P” – A-7 (plus); que muitos entendiam tratar-se de “A-7 P”ortuguês. A FAP recebeu 50 aeronaves A-7P e TA-7P (versão bilugar, a qual não restringia a capacidade operacional da aeronave). Com a introdução destas aeronaves, a Força Aérea entrou definitivamente na era das novas tecnologias, uma vez que o A-7 tinha um sistema inercial (INS) para ataque a alvos com precisão e navegação autónoma em alto mar, onde não existem pontos de referência para navegação ou largada de armamento. Possuía um radar de acompanhamento do terreno, que permitia voar a baixas altitudes, executando com eficácia a penetração em território hostil. Tinha um equipamento de Proteção Eletrônica (EPM) ativo e passivo, algo que nenhum outro caça português tinha anteriormente. Para além de estar equipado com Radar Altímetro, PMDS, Computador de Tiro e de Navegação, RWR, ALQ131, Rádios e IFF, seleção de armamento, etc.

O último voo do A-7P ocorreu no dia 10 de Julho de 1999, com 64000 horas de voo e 18 anos ao serviço da Força Aérea Portuguesa, com o A-7P número de cauda 15521, o qual tinha uma pintura muito especial.

O último voo do A-7P
O último voo do A-7P

Operação Althea (UE)- As Equipas de Observação e Ligação (LOT) da Bósnia

Depois dos Acordos de Dayton entrarem em vigor na Bósnia Herzegovina, impondo a Paz no território a partir do final de dezembro de 1995, as Nações Unidas (UNPROFOR – UN Protection Force) passaram à NATO (IFOR – Implementation Force) a tarefa de monitorizar o cumprimento dos Acordos. A IFOR entrou na Bósnia com cerca de 60.000 militares e uma componente aérea baseada no território. Um ano depois, e após terem decorrido eleições livres no País, a IFOR atingiu a sua data final com êxito na missão e foi desactivada. Em sua substituição a NATO criou a SFOR (Stabilization Force), reduzindo a força no terreno para cerca de 32.000 militares. Posteriormente, com o evoluir favorável da situação de segurança na Bósnia Herzegovina, a SFOR sofreu uma nova redução para 12.000 militares. Dez anos depois (2 de dezembro de 2005), a SFOR foi extinta e a NATO passou a tarefa de monitorização da Bósnia para a União Europeia (EUFOR), que criou para o efeito a Operação Althea (a Deusa Grega que curava as feridas dos guerreiros), operação essa que tinha cerca de 7.000 militares (mantendo uma componente aérea).

Com cada vez menos militares no terreno, e cada vez mais concentrados em poucos locais do País, a EUFOR necessitava de manter um forte e actualizado fluxo de informação, a fim de poder tomar decisões atempadas no tocante ao emprego das suas forças. Desta forma, e uma vez que em 2007 estava prevista uma nova redução da força para somente 1.600 militares, o Comando da Operação Althea decidiu seguir o conceito das equipas de Observadores Militares das Nações Unidas (UNMO), criando as Liaison and Observation Teams (LOTs). Estas equipas foram estabelecidas em variados pontos da Bósnia Herzegovina, cobrindo a totalidade do território.   

Camp Butmir – Sarajevo – HQ da Operação Althea.

Contudo, contrariamente ao sistema dos UNMO, as equipes dos Observadores da EUFOR não eram multinacionais, nem estavam sob o Comando Operacional ou financiamento da União Europeia; eram o resultado de acordos bilaterais entre os países fornecedores de forças e o Governo da Bósnia Herzegovina, estando, isso sim, sob o controlo e coordenação táctica da EUFOR. Quem definia quantos militares deveria ter a LOT, que meios deveria ter (carros, computadores, armas, etc.), que especialidades, quanto dinheiro deveriam/poderiam usar para financiar projectos locais, etc., eram as nações de origem dessas LOT e não a União Europeia.

Portugal manteve durante alguns anos duas LOT na missão Althea, ambas em território Sérvio no norte da Bósnia. A localização das LOT portuguesas era em Derventa e em Modrica, muito perto da fronteira com a Croácia (cerca de 30 quilómetros entre Derventa e a ponte fronteiriça sobre o rio Sava). Embora tivessem Areas de Operação (Areas of Operations – AOO) distintas, as duas LOT apoiavam-se mutuamente, distanciando cerca de 30 quilómetros entre elas. Cada LOT Nacional era composta por seis militares e três intérpretes.

De notar que o Manual das LOT Europeias, que define o modo de actuação e as diferentes tarefas a desempenhar pelos observadores militares da União, foi aprovado com base no modelo proposto pelos portugueses, cujas LOT foram consideradas o modelo a seguir. Para além dos militares que constituíam as LOT, Portugal mantinha ainda militares em cargos da estrutura de Estado-Maior da Althea, tanto ao nível global da missão como ao nível regional.

As tarefas de uma LOT eram:

– Observar e reportar a situação na sua AOO;

– Investigar e providenciar prontamente respostas a Pedidos de Informação (Requests for Information – RFI) do Escalão superior sobre a sua AOO;

– Fazer contactos e ligação com outras organizações internacionais e forças vivas (civis/militares) da Bósnia Herzegovina na sua AOO;

– Apoiar a recolha de informação e o trabalho da Comunicação Social Internacional;

– Elaborar e manter actualizados planos de evacuação para fora da sua AOO, em caso de agravamento da situação de segurança.

Embora a composição de uma LOT fosse da inteira responsabilidade da Nação que a implementava, o modelo regular implicava que a LOT deveria de ter a capacidade de executar duas patrulhas (auto) distintas, manter condições de segurança física e de comunicações/documental, ter entre 6 e 10 elementos, com a capacidade de manter 75% do pessoal permanentemente na LOT.

Paralelamente às LOT, Portugal também contribuía para a Operação Althea com um contingente da GNR, formado por 34 elementos, o qual recebeu uma Transferência de Autoridade (TOA) do Ministério da Administração Interna para o Ministério da Defesa, e marchou para a Bósnia para integrar a Unidade Internacional de Polícia (militar) da Althea. Este contingente estava sedeado em Sarajevo (Camp Butmir 2) e integrava um pelotão de ordem pública e uma equipa de investigação criminal. De notar que a investigação criminal da EUFOR para a Bósnia Herzegovina esteve sob comando português.

Em 2012, no seguimento de novas reduções na sua estrutura, a EUFOR passou a ter somente 600 militares e assumiou exclusivamente funções de apoio ao treino das forças militares da Bósnia Herzegovina. Algo que se mantém até aos dias de hoje.

Sarajevo Tunnel

During the Bosnian conflict (1992/95), Sarajevo was a besieged City, with Serbian forces (VRS) dominating al the surrounding hill tops around the City. All but one: – Mount Igman. Like all other hilltops, Mount Igman had also been under Serb domination, but during the conflict it changed hands to become a Muslin (ABiH) stronghold. The problem was that, between the Town and Mount Higman’s foothill, there was a vast open land where Sarajevo Airport was. Crossing the runways meant being shot down by Serb snipers/artillery; therefore, the City remained besieged. Whenever the Serbs wished to close the Airport, it would be close; to both land and air transportation. The only way Muslins could go through the Airport … was under it! Therefore, they built a narrow tunnel, starting on the basement of one of the apartment blocks neighboring the Airport; going under the runway; and ending on the Muslin controlled area on the other site of the Airport, at Mount Igman’s foothill.

With the construction of that tunnel the Serbian siege to the City had a flaw, from which the Muslins could bring weapons and first need provisions, as well as transfer people in and out of the City. In 1995 everybody knew about the existence of the tunnel, but only a few actually knew where the access points were. The ABiH concealed that information from most people, in order to avoid the VRS heavy artillery to bomb its entry/exit.

The famous Sarajevo tunnel – Photo by Jerry Tuomioja

 Drilling the tunnel was not an easy enterprise, especially if it had to be handmade and in a concealed manner. However, its maintenance was no less hard. The terrains above were not stable, and the constant movement of aircraft was an added problem. In more than one occasion, several portions the tunnel collapsed while people were using it. Reconstruction works were a permanently ongoing, many times fighting with inundations and loose soils. Furthermore, the tunnel was quite long, without air extraction or any time of injection of fresh air, it was customary for people to have serious respiratory problems while crossing it.

The construction, maintenance and use of Sarajevo’s Tunnel are intrinsically a part of the City’s recent history, a demonstration of its population struggle for survival. Years later, after the war ended, the tunnel collapse definitively, but a small part of it became a Sarajevo touristic attraction.

Estórias de missão – Boutrus Ghali impõem respeito à ONU (Bósnia 1995)

Um dia, no ano de 1995, durante a missão das Nações Unidas na Bósnia Herzegovina – UNPROFOR – ocorreu um episódio numa equipa de Observadores Militares da ONU (UNMO) o qual, para além de estranho, era no mínimo anedótico. Contudo, quem o contava jurava que tinha realmente acontecido.

Numa das zonas Sérvias da Croácia – na Krajina do Sul – a esquadra de polícia local recebeu uma queixa contra o Secretário-Geral das Nações Unidas – Boutrus Ghali. De acordo com o queixoso:

– “Butrus Gali é perigoso e tem a tendência de morder às pessoas que entram nas instalações das Nações Unidas. Deve de ser acorrentado a um poste de segurança ”.

Depois da estupefacção inicial, a cena clarificou-se: o queixoso referia-se ao cão mascote da Equipa UNMO da localidade, o qual guardava com zelo o perímetro cercado da vivenda alugada onde a equipa da ONU residia e trabalhava. Aquando da escritura da queixa o homem referiu-se ao animal pelo nome (que toda a gente conhecia), mas não mencionou que se referia a um cão.

Essa equipa de Observadores Militares da ONU havia adoptado um cachorro bonacheirão, ao qual, por brincadeira e carinho, haviam dado o nome de Butrus Gali – o nome do Chefe máximo da ONU – mas escrito de forma distinta para não ofender o original. O cachorro entretanto foi crescendo e transformou-se num mastim que, embora dócil e brincalhão para com os capacetes azuis, era particularmente zeloso pela guarda do perímetro da casa. Nenhuma pessoa estranha à equipa deveria ter a ousadia de entrar sem se fazer anunciar primeiro, a fim de que os UNMO se certificassem que o cão não seria um problema. Era um procedimento simples, óbvio, e que estava em vigor há bastante tempo. Os elementos da equipa UNMO rodavam com o tempo, mas o animal permanecia sendo a mascote e nunca tinha havido problemas. Havia mesmo um sinal no portão exterior da vivenda que dizia (em Inglês e Servo-Croata):

– “Cuidado com o cão; faça-se anunciar”.

No caso do queixoso, o “cavalheiro” decidiu entrar no perímetro da ONU por motivos ainda por clarificar, à noite, sem se fazer anunciar nem tocar à campainha. Após passar a vedação e a meio do jardim da casa, teve um “encontro imediato do 3º grau” com Butrus Gali. Reconhecendo que havia cometido um erro grave, o “cavalheiro” optou por fugir em direcção aos portões, os quais conseguiu ultrapassar mas não sem antes levar uma tremenda dentada nos “gluteus maximums”. Obviamente que a queixa foi inconsequente, tendo o queixante que se justificar perante a polícia acerca dos seus motivos por ter entrado sem ser convidado e sem se fazer anunciar, à noite, na casa dos UNMO.

Quanto a Butrus Gali e aos UNMO, a vida continuou normalmente, somente com um acrescento no sinal de “Cuidado com o cão” onde se podia ler (também):

 – “CAUTION – Don’t fuck around with Butros Gali!

O outro Boutrus Ghali, o original, era uma pessoa muito querida dos UNMO da Bósnia e conhecido por ser afável e simpático, “incapaz de morder a quem quer que fosse”. Contudo, como o respeito pela UNPROFOR era muito baixo junto das fações beligerantes, este episódio teve o efeito de levantar o moral da comunidade UNMO.

Pena que tenha sido o Butrus Galiu errado a fazê-lo!

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