Certo dia de operação na missão do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), em 1992, na Cidade de Luena – Angola – fui informado que o avião reabastecedor de combustível para aeronaves da ONU passaria a reabastecer-nos somente à noite. Como era responsavel pela gestão da actividade aérea da ONU na Provincia do Moxico, e uma vez que estavamos com pouco de combustível de aeronaves (Jet A1) armazenado, tentei coordenar o voo noturno de reabastecimento com as autoridades do aeródromo de Luena. Um homem muito simpático abanou a cabeça, olhou-me nos olhos e disse em voz baixa:
– “Não sei como lhe vou dizer isto, …, mas…, …, roubaram-nos as luzes de pista a noite passada. Só deixaram ficar 14 candeeiros, que estão em curto-circuito. Não podemos operar à noite!”
Era um dado novo, com impacto direto na distribuição do material para as eleições angolanas que se aproximavam a passos largos. Tentei negociar a vinda no meio aéreo da ONU durante as horas de luz solar, mas foi em vão. O constrangimento do reabastecimento noturno era inultrapassável, devido ao aumento das necessidades de Jet A-1 e à escassez de meios aéreos de distribuição.
– “Mas como é que nos roubam as lâmpadas de pista numa cidade onde não há energia eléctrica, e praticamente só nós é que temos gerador?”

Mas a pergunta era retórica, porque o que era necessário era resolver o assunto.
Numa região onde a guerra tinha destruído todas as ajudas rádio à navegação aérea e o sistema GPS estava a dar os primeiros passos, os voos noturnos de reabastecimento de combustível eram uma aventura, digna dos pioneiros da aviação. As tripulações dos C-130 da TransAfrik que faziam esses voos eram constituídas por veteranos de outras guerras, com uma grande variedade de países de origem. Todos eles eram profundos conhecedores do território Angolano, porque voavam naquelas paragens durante a guerra civil. A solução era fazer a coisa à moda antiga.
– “Vamos fazer fogueiras ao logo da pista para os pilotos verem a faixa de aterragem. Não deve de ser difícil de identificar porque não há mais luzes nenhumas nos arredores“
Restava saber como é que iriamos fazer as fogueiras. Num dos hangares de Luena, estavam armazenadas centenas de invólucros de projéteis de artilharia de 122 mm. Decidiu-se enterrar na berma de terra um cartucho de 50 em 50 metros, e meter lá dentro o pouco combustível que nos restava, com torcidas de pano feitas de fardas abandonadas. No alcatrão de ambas as cabeceiras da pista colocaram-se latas de leite em pó seguindo o mesmo sistema. Desta forma conseguiu-se ter a pista sinalizada de uma forma controlada. Foi um final de tarde bastante suado para os cinco elementos do PNUD em Luena, mas conseguiu-se fazer o que se pretendia, a tempo e horas.
Naquela noite, os C130 da TransAfrik apareceram sobre Luena e, após umas passagens baixas para se certificarem do local, aterraram e abasteceram os nossos depósitos tácticos de combustível. Nos dias seguintes a ONU pode continuar a voar normalmente, sem que nada de extraordinário se tivesse passado.












