Baltic Air Policing 2007 – Destacamento FAP em Siauliai apoiou orfanato.

No ano de 2007, por razões do fórum sociológico, a pequena cidade de Siauliai tinha mais de uma dezena de orfanatos, alguns dos quais a debaterem-se com sérios problemas de ordem financeira.

Dessa forma, tinha-se tornado quase uma tradição os vários destacamentos da NATO apoiarem essas instituições, ou as crianças que ali eram recolhidas.

O destacamento da Força Aérea Portuguesa na Lituânia, em 2007, quis dar continuidade a essa tradição Aliada. Porém, uma vez que não era uma função oficial, essa iniciativa não seria suportada por verbas do Estado Português. Desta forma, os militares da Força Aérea na Lituânia juntaram-se e tomaram uma decisão unânime: – “Vamos fazer uma festa de Natal para as crianças; pagamos nós do nosso bolso!”

Com o apoio das Relações Públicas da Base de Siauliai,

Tal como numa operação militar, e sempre com o apoio oficioso da Força Aérea Lituana, foi feito uma acção de intelligence sobre os potenciais “alvos”, tendo sido seleccionado um orfanato, com 98 crianças, que ainda não tinha recebido qualquer apoio do pessoal da NATO. No briefing de intel. Ficamos a saber que as crianças ali internadas tinham idades compreendidas entre os quatro e os dezassete anos, e que estavam organizados em oito grandes grupos, denominados de “Famílias”. Cada “família” tinha capacidades e carências próprias.

Com o “alvo” identificado e caracterizado, passou-se à fase de planeamento da acção, com o levantamento de capacidades do nosso Destacamento.

Verificou-se que um dos militares Lusos, tinha como passatempo tocar saxofone, tendo levado consigo para a Lituânia o seu instrumento para praticar nos seus tempos livres. Este militar fez uma selecção de músicas de Natal e ensaiou um pequeno concerto ao vivo para as crianças.

Após levantamento de necessidades práticas do orfanato em questão, os militares portugueses cotizaram-se, conseguindo a soma superior a 1000 Euros para patrocinar o evento. Uma delegação de airmen Luso/lituana deslocou-se a uma grande superfície comercial de Siauliai e foi adquirido o seguinte material:

– 1 Frigorífico combinado com grande capacidade;

– 4 Fornos Micro-ondas;

– Sumos e biscoitos em quantidade, para um lanche de cerca de 70 crianças;

– 98 Pacotes de doces e drops, para distribuição individual;

– 8 Cabazes de Natal, com brinquedos de utilização colectiva. Sendo cada cabaz constituído por:

            – Conjunto de carrinhos miniatura;

            – Uma bola de basquetebol ou de futebol;

            – Material para colorir ou pintar;

            – Um puzzle de grande dimensão;

            – Jogos variados (Xadrez, Damas, Dominó, Glória, etc.);

            – Dardos magnéticos.

A juntar ao cabaz comprado no supermercado, as crianças receberam ainda:

– Autocolantes e pins com o emblema do Destacamento Português;

– Cópias de um kit em papel para construir um F16Português (3D), de modo a que as crianças os pudessem interagir na “festa” com o pessoal da FAP que iria participar no evento.

No dia 07 de Dezembro de 2007, pelas 15H00, conforme acordado com o orfanato, após um número significativo de crianças terem regressado das aulas, um grupo de 15 militares do destacamento apareceram na instituição. Cinco foram ter com as crianças e os outros 10 ficaram a tratar das prendas.

 As crianças, que haviam sido reunidas na sala de ginástica pelos educadores, pasmaram ao verem três pilotos e um mecânico da NATO chegarem ao orfanato e começarem a tocar músicas de Natal. Em seguida toda a gente começou a construir aviões F-16 da Força Aérea Portuguesa, sob o olhar vigilante e a ajuda dos militares Lusitanos.

Kit em papel para recortar, construir e pintar um F-16 da FAP
Kit construido e pintado

De repente, o saxofonista, colocou um barrete vermelho do Pai Natal, e reiniciou o concerto com o “Gingle Bells”. Entre gritos de entusiasmo e expressões de espanto, as crianças viram mais 8 militares da Força Aérea Portuguesa, todos usando o barrete vermelho do Pai Natal, entrarem na sala carregados de presentes para lhes oferecer.

Pouco tempo depois, um novo grupo de 3 militares Lusos entrou transportando os aparelhos micro-ondas e o frigorífico. Embora muitas crianças ainda fossem de tenra idade, todos entenderam a grande utilidade que aqueles electrodomésticos constituíam para eles.

Beijos abraços e lágrimas foram as cenas seguintes, com os portugueses a dialogarem perfeitamente (em Português) com as crianças lituanas (em Lituano).

Palavras para quê? A linguagem era universal e cheia de carinho Natalício. Cumpprindo a missão longe dos seus próprios filhos, aqueles militares da Força Aérea Portuguesa aqueceram um pouco mais o Natal de 80 órfãos Lituanos.

Balkans – people with more History than they can hold.

Once, a Yugoslav intellectual told me that, the people in the Balkans would always be fighting each other, because they had more History they could hold.

–“You’re Portuguese; you will never understand the Bosnian problematic, because you’re the cultural result of “one single tribe in one same territory”. Here, people are from different tribes in the same territory and, simultaneously, from the same tribe in territories separated apart. It is only a matter of going back a little more in time, and each tribe will find a good motive for a retaliation action against the other(s)”.  

This year is the 25th Anniversary of the Dayton Agreements’ signatures. A set of agreements signed by all parties and sponsored by the United States of America, which brought peace to Bosnia Herzegovina.  The babies born after the Dayton Agreements are now finishing their studies at the Universities and taking junior leadership positions in the Country’s management. A Country which has exited a fratricide war through an imposition made by a foreigner organization, without having consensual solved their own internal problems.

Let’s hope that, with the potential Deglobalization announced by some international relations’ experts regarding the results of COVID 19 pandemic, we will not see further problems mounting up in Bosnia Herzegovina.

Portugal – uma única tribo num só território

Alguém me disse um dia, que os povos dos Balcãs haveriam de estar sempre em conflito, porque tinham mais História do que podiam aguentar.

 – “Vocês, os Portugueses, nunca irão entender isto; … sois o resultado cultural de uma única tribo num só território”. Aqui as coisas são diferentes, existem várias tribos dentro do mesmo território, e em simultâneo territórios diferentes, e separados, contendo a mesma tribo. Nos Balcãs haverá sempre uma razão para alguém argumentar antecedentes historicos de agressão de uma outra tribo, … é só uma questão de recuar mais um bocado no tempo, e passa a haver uma justificação para um ato de retaliação de uma das partes”.

Cumpre-se este ano o 25º Aniversário das assinaturas dos Acordos de Dayton, que trouxeram a Paz àqueles territórios. As crianças que nasceram depois dessa guerra fratricida estão agora a sair das Universidades para cargos juniores de liderança no País. Um País que saiu de uma guerra por imposição externa, como o problema mal resolvido pelas partes em conflito. Esperemos que a “desblobalização” estimulada pelo COVID 19 não traga novos problemas para dentro da Bósnia Herzegovina.

Campo de desalojados de guerra em Luena – Angola 1992.

Ao cumprir uma missão para as Nações Unidas em Angola, em 1992, houve uma situação que ficou gravada na minha memória, e na minha pituitária, para sempre: – a visita ao campo de desalojados de guerra, em Luena.

A ida ao Campo de desalojados foi um pedido disfarçado de convite, feito pelo responsável pela delegação de Luena da agência ONU – World Food Program (WFP) – o senhor Carlos S. O Carlos era um simpático peruano que geria as instalações do WFP perto da antiga linha férrea. Homem dos seus trinta e poucos anos, estatura mediana e com demasiado peso, vestia-se sempre com calças de ganga e camisa axadrezada. Como não tinha pessoal de apoio em quantidade suficiente, pedia ajuda a quem ia conhecendo, para levar a bom porto todas as iniciativas que conduzia. Naquele dia Carlos necessitava de ajuda para distribuir géneros alimentícios no campo de desalojados de guerra. Concordei em ajudá-lo enquanto decorriam uns voos de longa distância, que iriam levar cerca três horas a regressar. A minha boa ação, não só respondia a um pedido de um amigo da ONU como me possibilitava ter uma outra perspectiva da sociedade que me rodeava. Carlos foi buscar-me ao aeródromo de Luena no seu velho jeep descapotável. Afastámo-nos da Cidade e, muito antes de chegarmos ao campo de desalojados, comecei a sentir um desagradável cheiro a azedo no ar. Quanto mais nos aproximávamos, mais intenso aquele desagradável odor ficava. Parecia que cheirava a vomitado. Quando finalmente chegámos à estação de caminho-de-ferro abandonada, o cheiro era tão intenso, que fiquei com a sensação que aquela gente vivia dentro de um contentor do lixo, num dia de muito calor. Tentei disfarçar o meu desconforto e sorrir. Para ser simpático, balbuciei algumas palavras no dialeto local e apertei a mão a quem me queria cumprimentar. Disse, em silêncio, a mim próprio:

– “Aguenta o primeiro embate que daqui a um bocado a tua pituitária já se habituou.”

Campo de desalojados de guerra em Luena – foto de Peter Williams.

O Carlos ia-me explicando o que eu via, enquanto oferecíamos os sacos de farinha que havíamos trazido no jeep. Estavam ali entre 7.500 e 8.000 pessoas; ninguém sabia o número exacto. Eram como zombies, num dealbular triste pelo recinto sem qualquer ocupação ou destino. Por todo o lado ouviam-se pessoas a tossir. Uma tosse cavernosa indiciadora de maleita. Sempre que tocava em alguém, era assaltado pelo pensamento que, a seguir, teria de tomar um duche de descontaminante. Não era por snobismo ou segregação, mas porque aqueles carentes desalojados estavam imundos e doentes. O risco de ser contagiado por alguma maleita era realmente elevado. Contudo, continuei a cumprimentar toda a gente, porque senti que mereciam a minha consideração. Quase senti vergonha de mim próprio por pensar em evitar aquelas pessoas. Ali ninguém tinha optado por aquela viva miserável; todos tinham sido empurrados para aquele local pela força das armas.

Dentro do grande edifício fabril, as solas dos sapatos colavam-se ao chão de tão sebento que estava. A sensação que eu tinha e o ruído que as minhas botas faziam, eram como se estivesse a andar num soalho coberto com papel para agarrar moscas. Havia trapos pendurados a servir de parede para separar famílias. O telhado tinha grandes buracos e, devido ao mal estado de conservação da infra-estrutura, chovia em quase todos os compartimentos. Abundavam rolos de plástico com o logotipo do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados –UNHCR – com os quais se tentava colmatar a ausência de vidros nas janelas e telhas na cobertura. Contrariamente ao meu desejo, a minha pituitária recusava-se a habituar-se ao cheiro do local. Era um cenário de miséria humana, que me marcou e me faz ter muito respeito pela temática dos refugiados e desalojados de guerra. Seres humanos como nós, que não fizeram nada por merecer tais condições. Só tiveram o azar de nascer, ou estar, no local e altura errada. Fui assaltado por uma vontade estranha de lhes pedir desculpa, por usufruir de melhores condições de vida do que eles. O Carlos prescindia quotidianamente do seu bem-estar para ajudar os outros, colocando-se ao serviço do próximo.

Como militar, entendia bem o que era vocação para servir um bem comum; mas os voluntários da ONU, seus programas e agências, passaram a merecer toda a minha admiração e respeito.

War Tourism – Bosnia 1995

In August 1995, during the Bosnian conflict, I witnessed something I had never seen before – War Tourism. It all started with a simple Military Observers’ (UNMO) patrol, in Mont Igman (Sarajevo), while driving on a dirt road I hadn’t travel through before. Inside the UNMO vehicle traveled three UNMO (a Portuguese, a Dutch and a Belgian) plus our “Yellow card” – the Bosnian interpreter. That mountain road had been opened through Igman’s pine trees forest, which protected us from any inconvenient sniper’s visors. The pavement was in very bad conditions and their car was raising more dust than a sand storm; however, according to our interpreter, that was the fastest path to exit Mount Igman towards Konjic (our patrol’s destination).

Suddenly, on the narrow road’s edges, we started to see military bunkers and trenches, manned by Bosnian (ABiH) soldiers. For my greatest surprise, there were “street sale” vans bordering the trenches, and a number of civilians, in a cheerful racket, taking pictures of everything and everybody.

My expression of astonishment was such that my Belgium comrade, a veteran of the Bosnian conflict, decided to explain:

– “Relax; it’s just some War Tourists; it’s a new fashion in Europe.”

I was appalled, and I stopped the vehicle to observe the details of that scene. It really looked like the coffee break of a movie production about the Yugoslav War, with the actors having a beer and a hot-dog, still wearing their military outfit and the production crew wearing civilian cloth concentrated in the adjustments to cameras. The only thing missing was the Director to yell “Lights & Action”.

My Belgium comrade pulled out his national scrolls and explained the concept, which turned out, was not new at all. War tourism actually started with the Battle of Waterloo. There were spectators at the top of a hill, watching and appreciating, in an organized manner, the battle developments.

– “This is perverse.” – I exclaimed – “Some of these soldiers may be Killed In Action this very afternoon … Besides, what if these, so called, tourists encounter an illegal checkpoint? … What then? …Who’s going to risk his live to save them?”

At that point, the cameras turned towards the UN vehicle, and we became the perfect souvenir picture; “the photo” missing on the tourists’ album – a real UNPROFOR car, with real Blue Helmets on it; a Portuguese, a Belgium, a Dutch and a Bosnian civilian. We felt like we were the wild bests of a photographic safari. It was time to move and restarted the vehicle.  

One of the war tourists approach our car and, with a strong Dutch accent, asked how the situation was in Sarajevo and if we could escort them to town. At that point, our Dutch comrade, seating on the back seat with the interpreter, told him to “f҉҈k-off”, and I drove away discreetly. We vacated the area without any fuzz, in order not to upset the Bosniak soldiers, that having their 15 minutes of fame. The war tourists were treating them as warrior heroes and gave away all sorts of little presents in exchange for a picture with them.

A tropa no combate ao COVID 19

Esta coisa dos militares estarem a dar apoio e a trabalharem em modo de Planeamento Civil de Emergência (diferente de Proteção Civil), está a provocar azia a alguns elementos da nossa sociedade. Isto começa a fazer-me lembrar as quezílias de algumas NGOs (Organizações Não Governamentais) nos Teatros de Operações de Manutenção de Paz, que não gostavam nada de serem apoiadas pelas forças militares que estavam no terreno. Mais; não gostavam nada de verem os militares a fazer Cooperação Civil Militar (CIMIC). Diziam que não queriam ter nada e não queriam ser conectados com a tropa aos olhos da população que estavam a tentar ajudar. Porém, a verdadeira razão era que os seus patrocinadores, ao verem que essas NGOs tinham apoios, cortavam-lhes os (chorudos) financiamentos.

Posso ao estar a ser “politicamente correcto; mas questino-me se estou certo … ou se estou certo?!

Linhas Aéreas do Talvez (Maybe Airlines) – A componente aérea da ONU

Numa certa madrugada gelada de 1995, após chegar ao Aeroporto de Pleso, em Zagreb – Croácia – a fim de embarcar no meu voo inaugural para Sarajevo, deparei-me com uma fila de capacetes azuis junto à cancela que dava acesso directo para a placa dos aviões. Juntei-me ao grupo dos camaradas da UNPROFOR  e verifiquei que era ali mesmo, no exterior, que se fazia o check-in e embarque. Nada de luxo de terminais resguardados da neve com ar condicionado. Junto à cancela, recolhida numa guarita com o logotipo da ONU, estava uma mulher polícia da CIVPOL – a Unidade de Polícia Civil das Nações Unidas. Olhando para além da cancela podia-se ver um velho avião Antonov, sozinho no meio da placa meio nevada. Aquele teimoso veterano dos ares contrariava o seu aspecto museológico com as imensas horas de voo marcadas com manchas de óleo e fuligem na pintura (quase) branca da ONU. Na empenagem vertical da cauda, assim como na fuselagem, exibia orgulhosamente grandes letras negras a dizer UN, mostrando ao Mundo que se tinha fartado de “Guerra Fria” e agora era um “Guardião da Paz” (Peacekeeper).

Debruçada sobre a janela da sua guarita, a mulher polícia ia verificando as “guias de marcha” dos futuros passageiros, certificando-se que estavam na sua lista de embarque.

– “Bem-vindos às “Linhas Aéreas do Talvez” (Maybe Airlines) – Disse a polícia – “Acabei de ver passar a tripulação; a meteorologia não está francamente má; e ninguém está a disparar sobre os aviões em Sarajevo … desta forma “Talvez” vocês voem hoje”.

A alcunha (carinhosa) de Maybe Airlines devia-se ao facto de nunca se saber se havia voo ou não, se o voo ia chegar a horas ou não, ou mesmo se o destino era o inicialmente previsto ou não. Regra geral, não era um problema de falta de tripulações, ou mesmo de aeronaves; era, isso sim, um conjunto de situações que quase sempre tinham uma implicação negativa no planeamento da actividade aérea. Porém, não se pense que o pessoal da UNPROFOR estava desgostoso com as suas Maybe Airlines, pelo contrário, havia mesmo certo orgulho em voar naquela já afamada transportadora aérea. Havia até um carimbo disponível para carimbar guias de marcha e passaportes dos passageiros que o desejassem … e a maior parte deles faziam questão em ter esse carimbo nos seus documentos de viagem; tanto os militares como os civis.

Entretanto, em Pleso, a mulher polícia levantou a cancela e gritou a plenos pulmões:

– “Passageiros para Sarajevo! Por favor dirijam-se à aeronave, mostrem o vosso cartão de identificação UNPROFOR à tripulação e embarquem. Deixem ficar aqui as vossas bagagens devidamente identificadas, porque seguiram num atrelado para o avião.”

Enquanto caminhava para o Antonov ia estudando o antigo Soviete, questionando-me se seria boa ideia ir para o ar dentro “daquilo”. A minha expressão deve de ter sido tão esclarecedora, que o tripulante responsável pelo porão de carga (load master) adivinhou os meus pensamentos e disse-me:

– “Meu amigo, bem-vindo às Linhas Aéreas do Talvez” vamos descolar dentro em breve e … TALVEZ cheguemos a Sarajevo; deseja vir connosco?”

Já sentados nos bancos de lona, e no meio de todos os ruídos e barulhos característicos de uma aeronave vintage, o load master voltou a falar (aos gritos):

– “Senhores e senhoras, este voo será “Não Fumadores”, porque as caixas à vossa frente são munições; … certifiquem-se que se sentam em cima dos vossos coletes à prova-de-bala e apertem os cintos; … tenham um bom voo!”

A rampa traseira fechou-se e lá fomos nós.

Embora o destino “mais sexi” das Maybe Airlines fosse Sarajevo, eles também voavam para Tuzla (na Bósnia), para Split (na Croácia) e para Belgrado (na Jugoslávia). Anos mais tarde o “franchising” de Maybe Airlines passou a aplicar-se a todas as missões da ONU que tivessem uma componente aérea. Contudo, independentemente do local e situação que voasse nessas aeronaves, nunca mais me esqueci do velho Antonov, que se recusava a ir para o Museu e continuava a voar na Bósnia Herzegovina.

28 August 1995 – Another Black Monday in Sarajevo

On the 28th of August 1995, at approximately 11H00, I was leaving the UNMO Duty Officer shift at UNPROFOR HQ (Sarajevo) when we all heard some explosions in the general direction of the City’s historical center. Unfortunately, that was quite normal, because was hit an average of 16 artillery grenades per day. However, the first messages had the word MASSACRE, written in capital letters, and that made sound all the alarms. The head of Sarajevo’s Police department was requesting UNPROFOR to send urgently military experts to register and analyze the occurrence. Allegedly, Sarajevo had been attacked with five 120 mm mortar shells, and one of them had impacted in the market place killing a lot of people.

Minutes after, a new message shifted the numbers of casualties to 37 dead and 97 wounded. Those were people that were just buying whatever groceries they could afford at the local market. The total numbers ended up to be 43 people killed and 75 wounded.

At the start, there were a lot of doubts about who had done it; who had fired those mortar rounds. Some said it was impossible for the Serbs to have done it, because there was no angle for a mortar to be fired from their positions to hit that street, in the middle of tall builds. Others argument that it could have been done from the top of a mountain, in which case it would change completely the mathematics. Regardless those discussions, it was well known that the Serbs were forbidden to have heavy weapons around Sarajevo and, not only they disregarded that imposition; they actually kept using heavy weapons against Sarajevo, regularly.

On the 29th August 1995, UN said “enough is enough!” The Serbs had crossed the red line over and over again; something had to be done and NATO was asked to punish the VRS heavy weapons position around Sarajevo.

The North Atlantic Alliance was just waiting to have the “go ahead” and activated an Airstrike Operation planned well in advance, called “Deliberate Force”.

Operation Deliberate Force

On the early hours of the 30th August 1995, Operation Deliberate Force was launched. A large number of NATO jet fighters took off from Italy and aircraft carriers in the Adriatic, with the mission to strike the Serb heavy weapons’ positions around Sarajevo.

The sounds of explosions and jet fighters were constant throughout that dawn. At sunrise we all came out of the house’s basement and sought for a protected position outside, in order to witness the “aerial display”. That was a unique occasion to see, first hand, a real “air to ground” combat operation, relatively close to the targets, without being targeted. The Serbian positions were up in the hills surrounding Sarajevo, just a few kilometers away from our UNMO house; hence we had perfect “line of sight” to the target area.

The A-10 – Thunderbolt II – known as “Warthogs”, were flying in circles up above Sarajevo. They at no more than 5.000 feet (1.600 meters) above ground, which meant that the Serbian air defense missiles had already been destroyed; otherwise they would be flying much higher. They were making wide circles, like a flock of predatory big birds, in a Combat Air Patrol (CAP) attitude, looking for a prey to strike down below.  

Spaced apart, one A-10 would take turn and dived towards the hills surrounding Sarajevo, aiming the VRS positions and opened fire. We could distinctively hear the sound of the 30 mm “Avenger” cannon bursts. It seemed the noise of a powerful motorbike, making speed-up accelerations in the skies. The sound of the cannon overlapped the noise of the aircraft’s twin turbines. The Avenger cannon had seven barrels rotating each time a projectile was fired. Each burst couldn’t be longer than two seconds, hence the sensation of multiple speed-up accelerations. In each two seconds burst the A-10 cannon fired 140 rounds straight into its target. Each bullet was the size of a king size tooth paste tube, with a “jacked” of depleted uranium able pierce almost all types of armor.

A-10 firing the Avenger cannon – photo Pixabay

But the Warthogs’ attacks also had a visual characteristic. Each burst of the Avenger left in the sky a trail of white smoke from the burned gunpowder. The sequential one or two seconds bursts, seemed to be writing in Morse Code up in the blue sky.

Such a scene, with several A-10 overhead, was like an aerobatic team with smokes-on, over Sarajevo.

The Serbs were not enjoying the show … at all. On the target area, it was hell. The impacts of the cannon rounds on the hill side provoked sparks, flames, clouds of dust and smoke. Some rounds ricocheted back into the air, still incandescent.

Due to the high concentration of cannon rounds, the inclination of the hills and the movement of the aircraft, it seemed there was a worm climbing fast up hill, until it hit the target and something exploded. There were large pine trees jumping up in midair, as if they were tiny toothpicks.

After each dive, the A-10 pilots rolled out, in a demanding pull up, while offering a last air show of fireworks, deploying their defensive missile countermeasures – the flares. It was a precautionary measure for an eventual man-portable air-defense system (MANPADS) missile.

A-10 pull-up with flares in Bosnia – photo by Carlos Oliveira

In the south-western parts of Sarajevo, towards Lukavica’s location, we could see thick columns of dark smoke reaching out to the air. Those were the results of F-16 airstrikes with guided bombs, from high altitudes up above. The F-16 could be heard but hardly seen. They were too small, too fast, flying too high and their grey camouflage would hide them from eye sight.

NATO was doing “Peace Enforcement” and the Serbs were on a “hide and defend” mode, which was something they were not accustomed to do; hence, they were not very good at it. That day was the beginning of the end of the Serbian Army (VRS) supremacy in Bosnia Herzegovina.

O Túnel de Sarajevo

Durante o conflito na Bósnia Herzegovina (1992/1995), a Cidade de Sarajevo esta cercada pelas forças Sérvias (VRS), que dominavam os cimos dos montes que rodeavam a zona urbana. Contudo, havia um monte que as forças muçulmanas (ABiH) tinham conseguido ardilosamente subtraído ao domínio Sérvio: – o Monte Igman.  O problema era que o sopé do Monte Igman que dava acesso à Cidade, ficava na zona de Butmir, no vale onde estava o Aeroporto de Sarajevo. Isso significava que, para entrarem ou saírem de Sarajevo pelo Monte Igman, as pessoas tinham de atravessar a zona aberta do Aeroporto, que era constantemente flagelada pelos snipers e artilharia Sérvia.

Em termos práticos, embora tivesse passado a haver um ponto de entrada na Cidade, Sarajevo continuava cercada, com os seus acessos controlados pelos Sérvios. A única forma que os habitantes de Sarajevo tinham para atravessar o Aeroporto, …, era por baixo dele. Desta forma, decidiram construir um túnel, que ligasse a zona norte de Dobrinja, com a zona sul de Butmir e o sopé do Monte Igman, atravessando na perpendicular o subsolo das estradas de acesso, da pista e dos caminhos de rolagem do Aeroporto de Sarajevo, numa extensão superior a um quilómetro; e assim foi feito. Fizeram um túnel estreito, com um teto mais baixo que a altura de um homem.

Com a existência do túnel, cujas entradas/saídas eram mantidas em segredo a fim de não serem alvo da artilharia Sérvia, o cerco da Cidade passou a ter um “furo”. As provisões de armas e mantimentos vindas do exterior podiam entrar, em pequenas quantidades e transportadas à mão; assim como as pessoas também passaram a poder entrar e sair em pequenas quantidades (até porque o Governo Muçulmano não autorizava que a Cidade fosse evacuada).

O famoso Túnel de Sarajevo – foto de Jerry Tuomioja

Porém, construir o túnel não terá sido o único desafio. Manter aquela infra-estrutura aberta e operacional revelou-se uma tarefa hercúlea. Devido a ficar situado no sopé de um Monte, com as águas a escorrerem constantemente para o vale; assim como ao facto de passar por baixo de um aeroporto que, embora pontualmente, recebia aviões de porte considerável, os terrenos onde o túnel tinha sido construído abatiam com regularidade, enterrando que lá estivesse a passar no momento. Por outro lado, o túnel não era dotado de qualquer tipo de extracção de ar, nem (no início) era provido de electricidade, pelo que a travessia daquela extensão considerável, muitas vezes com água de inundações, era muito penosa. Não raras vezes os transeuntes menos atléticos colapsaram por exaustão e falta de ar.

A construção do Túnel de Sarajevo está intrinsecamente ligada à história recente da Cidade, numa demonstração de determinação pela sobrevivência e coragem dos seus habitantes. Anos mais tarde uma parte do túnel foi recuperada e está aberta ao público, na saída de Butmir, como um dos pontos turísticos de Sarajevo.

News media War Correspondents in Bosnia – “If it bleeds, it leads”

By the end of November 1995, when people were already starting to walk around in Sarajevo’s streets, due to the recent Cease Fire Agreement, I noticed a marble plaque on a wall, at Marshal Tito’s Avenue, that said:

–“Truth was the first casualty on the fratricide war of Bosnia”.

It was said that the plaque had been put there by a small group of Sarajevo’s intellectuals, who had managed to elude the snipers.

The origin of that famous phrase is attributed to the US Senator Hiram Johnson (1918), when he referred to the misinformation campaigns during WW I, and the way it influenced the results on the battlefield.

The very same phrase applied perfectly to the ex-Yugoslavian conflicts. Truth had been suffocated under the political arguments of each opposing faction.  The Serbs had lost the media/information battle, and that made all the difference in the result of Bosnia’s (and Krajina) war. In modern times, one could win all battles and still lose the war, if he couldn’t tell his version of the story; fast.  The Bosnian muslin understood it, and dominated the media battle field; thus influencing the decisions in the confrontation lines. The way to deal with warfare had evolved; once more.

Evolution of the battlefield

The problem was that news media journalism had not evolved with the same rhythm of the available (communications) tools. Satellite communications demanded life and constant flow of information; and the audiences what an hourly update of what was going on in the battlefield. However, no even the military operations had such a high rhythm. After each combat, or skirmish, the fighting grounds normally enter a quiet phase, were there’s nothing to report about. Not on the military Situation Report (SITREP) neither on the news media report; but the demand for an update persists.

 The absence of “Breaking News”, on an hourly basis, combined with the political agenda of the news media channels, were putting a tremendous pressure on the editors back home, and they made sure to transfer that pressure to the reporters on Bosnia’s grounds. The “war correspondents” had to feed their bosses with some “stuff” to broadcast or print; and that’s what they did … they looked for “stuff”; and fast, even if that distorted the information. Reporting first became more relevant than reporting better; and it would have to have a touch of dramatics (because that’s what the audiences wanted). The new mantra was:

–“If it beads, it leads”.

If it bleeds, it leads.

It was a mixture of information and (sadistic) entertainment – and that’s how INFOTAINMENT was borne.

The presence of war correspondents on the fighting grounds was just another characteristic of the battlefield reported on the daily briefings; like it was the meteorology, the battle order, or the daily flight schedule. There was nothing anyone could do about it; apart from being fit to operate, and carry-on under those conditions.

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