Outubro de 1992 – Num voo de C-130 que levou mais de 20 horas a percorrer o trajecto Lisboa x Luanda, com duas paragens técnicas de uma hora em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, finalmente estávamos a sobrevoar a Capital Angolana.
O nosso Hercules evoluiu sobre a Cidade, a fim de se posicionar melhor para a aterragem. A manobra permitiu-nos observar a verdadeira dimensão da urbe. Para além das zonas da baía e do centro da Cidade, com os seus edifícios altos, avenidas amplas e bairros com bonitas vivendas coloniais, havia uma outra Luanda; um enorme musseque, que se estendia a perder de vista, constituído por trilhos sinuosos de construções térreas feitas de barro, onde viviam mais de 70% dos dois milhões de pessoas que na altura habitavam em Luanda.
Durante a aterragem observámos que o aeroporto estava militarizado, com muitas antenas de radar, e outros equipamentos com aspeto bélico, distribuídos entre as placas e as pistas. Contudo, aquilo que mais me atraiu a atenção foi um conjunto de três veículos enferrujados que jaziam para além da soleira da pista. Eu reconhecia perfeitamente aquelas máquinas, mas não conseguia ligar o objeto com o local ou a função. Estava perante uma cena que atraiçoava a forma estereotipada de interpretar o que me rodeava. Era uma daquelas sensações de ver um barco encalhado nas areias de um deserto. Fiquei particularmente curioso acerca daqueles equipamentos de aeródromo que, pelo aspecto enferrujado, não deveriam ter tido muito uso. Quando desembarcámos, fomos gentilmente recebidos na placa por uma delegação da Embaixada Portuguesa em Luanda e representantes da ONU. Perguntei ao pessoal militar da Embaixada o que eram aqueles estranhos veículos que apodreciam no final da faixa. Foi-me respondido que eram “limpa-neves”, oferecidos pela (antiga) ajuda Soviética.
–“Limpa neves? Em Luanda?” – Perguntei (retoricamente) contendo uma gargalhada, para não ofender os presentes.
–“Sim, para os Soviéticos qualquer aeroporto que se preze tinha de estar dotado com limpa-neves. O local geográfico era um mero detalhe. Eles mandaram tanto material para ajudar Angola que “mais limpa-neves, menos limpa-neves”, ninguém reparou na coerência da oferta.”

Claro que aquelas máquinas nunca foram usadas e apodreceram no local onde tinham sido descarregadas.
Era a definição de Surrealismo na versão limpa-neves. Estas máquinas fora de contexto surpreenderam-me e despertaram a minha veia humorista. Assim que tive oportunidade e sossego, fiz o meu primeiro rascunho de cartoon sobre uma missão operacional. A partir dessa altura passei a observar e desenhar todas as situações que fugissem à banalidade do quotidiano, complementando os meus diários de missão.
Por outro lado, como viria a descobrir mais tarde, o tipo de atividade que iria desenvolver na ONU inibia que se tirassem fotografias. Havia mesmo instruções específicas proibindo o uso de máquinas fotográficas. Essa restrição, que eu viria a encontrar noutras missões da ONU, procurava evitar mal-entendidos por parte das fações em conflito, que viam a atividade fotográfica como uma forma velada de recolha de informação. Os cartoons eram uma alternativa pacífica de recordar graficamente a vivência no terreno, sem arranjar problemas com as forças em conflito.

Quando tive em Luanda ouvi a história de que havia um limpa neves no aeroporto achei meio estranho, fiquei meio ceptico, mas pelos vistos havia mesmo! Bom ouvir a historia na primeira pessoa!
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Falta de imaginação! podiam muito bem ter servido para destruir o “musseque” existente e para a construção de novos edifícios, mas o dinheiro no bolso é muito mais reconfortante e dá menos trabalho. Imagino que durante a guerra devem ter “consumido” uns milhões de litros de gasóleo… se é que me entendem!
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