Histórias de missão; missa Cristã no Afeganistão

Numa certa tarde de 2013, no aquartelamento civil da ONU na Região Central das Terras Altas do Afeganistão – em Bamyan – corria o rumor que iria acontecer uma cerimónia religiosa Cristã algures num local recôndito da Cidade. O convite foi apresentado à porta fechada, em voz baixa, de uma forma quase sigilosa, como se de um “assunto classificado” se tratasse. O caso não era para menos; o próprio nome do País era “República Islâmica do Afeganistão” onde, oficialmente, não se podiam praticar outras religiões.

Bamyan (2013) – Terras Altas do Centro do Afeganistão

– “Uma missa Cristã?” – Perguntei surpreendido. – “Aqui? Mas isso não é ilegal?”

“Chiu, … ” – Silenciou-me imperativamente o interlocutor – “Queres ir ou não?”

“Obviamente que sim. Quando partimos?” – Respondi; em busca de mais uma aventura.

“Vamos ao pôr-do-sol. Certifica-te que não vais fardado!”

No Afeganistão, o único local onde se podia celebrar oficialmente a Missa Cristã era na capela da Embaixada de Itália, em Cabul. A razão desta excepção devia-se ao facto de, em 1919, a Itália ter sido o primeiro país a reconhecer o Afeganistão como um país independente e soberano. Assim, em reconhecimento pelo apoio de Itália, o Rei Afegão – Amanullah Khan – perguntou ao Governo Transalpino qual seria o regime de excepção que lhes poderia oferecer em Cabul. O Protocolo de Estado ditava que este tipo de ofertas não poderiam ser declinadas, mas a resposta teria de ser algo simbólico e devia de oferecer relevância à Embaixada de Itália em relação ao resto do Corpo Diplomático que viesse a ser instalado em Cabul. Desta forma, os italianos solicitaram autorização para poderem celebrar oficialmente o ritual religioso Cristão, no interior da sua embaixada, podendo receber nesse ritual todos os elementos internacionais que desejassem assistir à missa. As autoridades afegãs aceitaram o pedido e a Embaixada de Itália passou a ser o único local no Afeganistão onde se podia celebrar a missa Cristã; até mesmo durante o tempo do Regime Talibã essa excepção continuou a ser aceite.

A região de Bamyan era essencialmente habituada pela etnia Hazara (descendentes mongóis de Genghis Khan) os quais eram bastante tolerantes aos costumes ocidentais; contudo, não convinha abusar da sorte e o assunto da missa Cristã foi tratado com sigilo. O assunto tinha nuances medievais de culto proibido, como na época do Império Romano, quando apareceram os primeiros Cristãos.

Quando o crepúsculo caiu sobre Bamyan, um pequeno grupo de cinco elementos internacionais partiu de carro, sem grande alarido, das instalações da UNAMA. Levávamos connosco um cabaz com refeições para dez pessoas, demonstrando que não íamos jantar sozinhos. Depois de chegarmos às vizinhanças do nosso destino, deixámos o carro nas instalações de uma ONG conhecida e deslocámo-nos silenciosamente a pé, pelas ruas estreitas da aldeia, que o luar tinha dificuldade em alumiar, procurando não tropeçar nos montes de neve que cobria o solo irregular. Estava frio, pelo que todos envergávamos a tradicional e confortável capa/manta de lã – “Patu” – que nos dava um aspeto ainda mais medieval. O único som que se ouvia era um distante cão de guarda, que procurava denunciar a presença de algum animal bravio, que tivesse descido à aldeia em busca de alimento no lixo. Ocasionalmente acendíamos uma lanterna, para nos mostrar melhor uma esquina em tijolos de lama ou o chão enlameado, coberto por alguma neve recente.

O nosso silêncio só foi quebrado ao chegarmos aos portões altos, de uma determinada habitação. Não houve palavras-chave nem senha e contra-senha, porque o nosso aspeto era por demais denunciador de quem eramos e ao que vínhamos.

–“Boa noite.” – Disse em bom Inglês um empregado local. – “Entrem por favor, o Padre André está à vossa espera.”

O Padre André era um missionário Jesuíta, que fazia trabalho humanitário voluntário na região. Com ele trabalhavam outros jesuítas, que constituíam um pequeno núcleo dedicado a contribuir para o bem-estar das populações onde se instalavam.

Os Jesuítas tinham pergaminhos no Afeganistão desde tempos remotos. O padre português Bento de Gois, em 1581, esteve entre os primeiros jesuítas a pregarem em terras afegãs, que na altura se chamava Ásia Ocidental. Contudo, os jesuítas com que interagíamos em 2013 tinham a sua origem nas Filipinas.

Cruzámos os portões e, após atravessarmos um amplo pátio a céu aberto, chegámos à casa propriamente dita. Descalçamo-nos e entregámos a comida a um outro empregado local que nos recebeu com um amplo e respeitoso sorriso, colocando a mão no peito enquanto dizia: – “Assalam-u-Aleikum” (a paz esteja contigo).

A fraca luz elétrica era providenciada por um velho gerador, que trabalhava do lado de fora da casa, e que era convenientemente ruidoso para abafar as conversas que se tinham lá dentro.

No interior da sala estavam três Jesuítas e dois empregados afegãos. Após as tradicionais apresentações, sentamo-nos no chão, sobre um belo tapete persa, e bebemos o chá de boas-vindas, à boa maneira afegã.

Passados alguns momentos, os empregados afegãos receberam um sinal no olhar do Padre André e saíram da sala.

O Jesuíta passou a explicar que iria celebrar a missa de acordo com os métodos antigos, onde a leitura das escrituras seria mais interpretativa por parte da audiência do que sentenciosa por parte do ministro de Jesus. Em seguida levantou-se e convidou o pequeno grupo a segui-lo.

Atrás de um cortinado havia uma porta baixa que dava acesso a um lance de escadas para a cave da habitação. Sob o olhar atento do Padre André, os outros dois jesuítas afastaram um armário que guardava pequenas alfaias agrícolas e deparou-se-nos uma pequena e escura abertura na parede, com cerca de um metro e meio de altura e 90 centímetros de largura. Era o acesso ao “Templo”. O Padre André agachou-se e entrou no buraco. Passados uns segundos a cavidade iluminou-se com a luz trémula de várias velas. Um após o outro, entrámos no “Templo”. A reduzida abertura, que tinha de ser ultrapassada com uma profunda vénia, dava acesso a uma pequena gruta cavada na parede arenosa como se fosse um igloo. O “Templo” não teria mais de nove metros quadrados, sem qualquer janela, mas tinha um teto abobadado bastante alto, que denunciava o trabalho da mãe natureza no empreendimento. As paredes estavam caídas de branco e tinham pequenos nichos esculpidos na rocha, onde o jesuíta tinha colocado velas aromáticas que davam um ambiente místico ao compartimento. O chão estava completamente forrado com bonitos tapetes persas e grandes almofadões para nos sentarmos. Oposto à entrada estava uma pequena mesa, muito baixa, que servia de altar.

O Padre André posicionou-se atrás da mesa e nesse momento alguém voltou a arrastar o armário das alfaias para a parede, selando assim a entrada do “Templo”.

– “Não se preocupem, é só o meu pessoal a “fechar a porta”, …, está tudo bem!” – Tranquilizou-nos o Padre André.

O ritual religioso iniciou-se, em língua Inglesa, cumprindo os preceitos de uma missa cristã. A dado momento o Padre André convidou a assistência a sentar-se e começou a ler uma passagem da Bíblia. Depois, um por um, atribuiu a cada um dos participantes o papel de uma das personagens daquela passagem bíblica, para uma reconstituição da situação reportada no documento sagrado. Passados uns momentos de introspecção, os presentes explicaram o que haviam sentido ao meditarem sobre a atuação do sue personagem. Aquilo já não era uma missa mas sim uma “sessão de Cristão Anónimos”.

– “Olá, eu sou Judas e hoje eu pequei…”

A liturgia acabou com cerimonial habitual, mas não houve a comunhão do pão e do vinho, uma vez que isso fez parte da refeição propriamente dito que se seguiria, sentados em volta de uma mesa, de uma forma muito parecida com a Última Seia.

Foi uma experiencia enriquecedora e indelével, independentemente do fervor religioso de cada um dos presentes. Foi como viajar vários séculos no tempo e ter a oportunidade de ver a forma como os primeiros cristãos faziam as suas cerimónias clandestinas. Também eles teriam grupos muito pequenos e íntimos; também eles se deveriam ter movido nas sombras para chegarem ao “Templo”; também eles se deviam ter escondido numa qualquer gruta, feita numa cave, para evitar consequências desagradáveis das autoridades locais.

Publicado por Paulo Gonçalves

Retired Colonel from the Portuguese Air Force

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