Sarajevo 1995 – as estradas do Monte Igman.

Em 1995, quando o Aeroporto de Sarajevo estava fechado tínhamos de entrar e sair da Cidade sitiada através do Monte Igman.

Descer o Monte Igman não era só perigoso devido ao fogo dos snipers e das granadas RPG, era igualmente um perigo conduzir naquela estreita estrada de terra batida, com elevado grau de inclinação, e uma ravina que não desculpava qualquer ligeira saída da picada.

Descida do Monte Igman – Camião UN atingido – foto de Franky Hauwelaert

O dia 19 de agosto de 1995 foi um dos dias marcantes naquelas descidas do perigoso percurso. Nesse dia ocorreu algo trágico e marcante, para a história da Guerra da Bósnia. Estava previsto para esse dia a chegada uma delegação de alto nível Norte-Americana a Sarajevo. O objetivo dessa delegação era de negociar um possível cenário que contribuía para o fim do conflito. Algo que, segundo os rumores que corriam, seria uma alternativa aceite pelos sérvios que implicava o fim do cerco a Sarajevo.

Uma vez que o aeroporto continuava fechado, a delegação Americana fez o caminho alternativo que implicava descer o Monte Igman. A coluna de carros blindados era constituída por dois veículos, transportando no seu interior os diplomatas e respetiva escolta. No carro da frente viajavam o Alto Representante dos Estados Unidos para a Europa e Ásia – Richard Holbrooke – e uma alta patente do Pentágono – General Wesley Clark. No segundo veículo viajavam o Embaixador US para a Bósnia – Robert C. Frasure; o diplomata Joseph Kruzel; e o Coronel Sam Nelson Drew da Força Aérea Norte-Americana.

Toda a nossa atenção estava concentrada naquela visita e tudo parecia estar a correr normalmente. Contudo, aproximadamente a meio da descida do Monte Igman, o veículo de trás, um blindado de transporte de tropas (APC) francês, saiu repentinamente da estrada e caiu montanha abaixo. Durante a queda deram-se algumas explosões porque, aparentemente, aquela zona da ravina estava minada. Quando os militares da ONU se aproximaram do local, no sopé do monte, encontraram o veículo a arder. Os reportes que recebemos informavam a existência de feridos graves e quatro mortos. Tinham morrido no acidente os três VIPs americanos e o condutor do Exército Francês. O veículo que seguia à frente, com o Dr. Holbrooke e o General Clark, prosseguiu para Sarajevo. O constrangimento era geral e, obviamente, não houve qualquer negociação nem contatos diplomáticos.

Mais tarde, veio a verificar-se que a razão da queda do APC tinha sido uma mina anticarro colocada na estrada. Durante a queda, as explosões que ocorreram deveram-se a outras minas que estavam na encosta.

Essa descoberta deixou o sobreolho franzido a muitos militares da ONU, conhecedores da área em questão. Aquela picada tinha sido utilizada naquele mesmo dia e não tinha havido nenhum incidente com minas. No entanto, tinha chovido bastante no dia anterior, abrindo a hipótese da mina ter escorregado encosta abaixo até à estrada com uma enxurrada, ou um deslizamento de terras. Não deixava de ser estranho que vários carros tivessem passado por aquele mesmo local nesse dia sem ter ativado a mina.

Nesse mesmo dia, umas horas mais tarde, um carro de combate – Scorpion – Britânico, ao descer o Monte Igman, embateu num outro APC francês que ia à sua frente, um Renault VAB semelhante ao que transportava os VIP nessa manhã, fazendo-o sair da estrada e cair na ravina. Este segundo acidente, embora não tivesse ativado nenhuma mina, também causou vários feridos graves e um morto, todos franceses.

Publicado por Paulo Gonçalves

Retired Colonel from the Portuguese Air Force

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