A passarada violou a Zona de Exclusão Aérea – Bósnia 1995.

Na noite de 24 para 25 de Fevereiro 1995, eu estava de turno à posição radar cedida à ONU no Centro de Controlo Aéreo de Área (ACC) de Belgrado, para a vigilância da Zona de Exclusão Aérea (No Fly Zone) sobre a Bósnia. A uns meros 100 quilómetros da minha posição, decorria o mais sangrento conflito na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

Cerca das 02H00 da manhã surgiram quatro alvos no monitor do radar dentro da Zona de Exclusão Aérea. Havia uma separação em distância e tempo, entre cada um, de aproximadamente 10 quilómetros, ou 20 minutos, e todos se deslocavam para Este em direcção à (então) Jugoslávia, a cerca de 90 quilómetros por hora. Após consulta da informação meteorológica verifiquei que o céu estava bastante nublado, com nuvens baixas, ventos moderados a forte e queda de neve. Em suma, não havia condições atmosféricas sobre a Bósnia para voos de contacto visual com o terreno.

Caso aqueles blips no ecrã fossem helicópteros não poderiam voar baixo, contornando vales e montanhas, para fugir à cobertura dos radares de terra. A única possibilidade era subir acima da altitude da montanha mais alta e voar directo para o destino, com uma boa separação entre aeronaves. Eventualmente, como medida extra de precaução, deveriam voar o mais lento que fosse possível, a fim de que os filtros dos radares que eliminavam alvos fixos ou demasiado lentos (Moving Target Indicator) os escondessem dos monitores dos aviões radar (AWACS) da NATO. Uma vez que os AWACS “olhavam” de cima para baixo, os seus radares podiam ver entre vales e montanhas, mas apanhavam todo o tipo de veículos terrestres, pelo que os filtros de movimento eliminavam alvos lentos para não confundir os operadores. Voar a menos de 90 quilómetros por hora (potencial velocidade de um carro/comboio) poderia dar invisibilidade às aeronaves prevaricadoras.  Porém, isso não resultava com os radares terrestres que olhavam para cima. A única forma de fugir ao cruzamento dos dois sistemas era voar a velocidades baixas entre montes e vales. Naquela noite, a segunda premissa não era possível e lá estavam os quatro blips a brilhar no meu radar, sobre a Bósnia Herzegovina.

O contacto radar inicial foi feito praticamente na fronteira Oeste entre a Croácia e a Bósnia; ou seja, saindo da Krajina Sérvia do Sul. Os alvos atravessaram toda a extensão da Bósnia Herzegovina em direcção a Este, desaparecendo horas depois próximo da fronteira com a Jugoslávia, onde a morfologia do terreno era mais plana. Os alvos eram um retorno consistente com velocidade constante, não havendo espaço para ser um erro de sistema ou retorno de terreno.

DE modo a manter uma postura de transparência nos relatórios da ONU, convidei o supervisor dos controladores Jugoslavo para verificar aquela potencial violação da Zona de Exclusão Aérea. Ele observou cuidadosamente os blips, verificou os meus apontamentos das posições radar que haviam feito, e concluiu:

– “Isto são aves migratórias.”

– “Aves migratórias?! – Exclamei incrédulo. – “A voar a 90 Km/h? Durante o Inverno? Em direção a Este? Às duas da madrugada? Com queda de neve e tudo? … Acho que não!

Porém, vou registar nas observações do relatório a sua opinião. Nós reportamos o que vemos … alguém acima do meu escalão há-de decidir se é ou não uma violação”.

Tradução – Vocês estão a violar (a zona de exclusão aérea) preparem-se para serem interceptados … rapazes … apanhem-nos!

Embora eu soubesse que efectivamente havia aves migratórias que voam à noite nas suas migrações, e que alguns até voavam depressa, esses voos eram feitos no Outono/Primavera e nas direções Norte/Sul para evitar as condições inclementes do Inverno; nunca para Este e nunca no meio de um nevão.

Dois dias tarde, um relatório vindo das forças UNPROFOR no terreno informava que naquele dia, àquela hora, tinham ouvido o barulho de helicópteros a voar em direcção à Jugoslávia.

Publicado por Paulo Gonçalves

Retired Colonel from the Portuguese Air Force

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