Guerra da Bósnia Herzegovina – missão de Manutenção de Paz UNPROFOR – 1995. No dia 18 de agosto choveu bastante durante praticamente todo o dia. Numa situação normal, a pesada chuva seria indício de um dia mais calmo na frente de batalha, com os combatentes recolhidos nos seus abrigos. A inclemência meteorológica é, regra geral, inibidora de grandes iniciativas belicosas. Contudo, naquele dia ocorreu exatamente o contrário, ficando marcado por um injustificado incremento do conflito. O incidente que mais atenção atraiu foi um ataque, por fogo de snipers, a um dos poucos autocarros que ainda circulavam na Cidade, numa zona mais segura de Sarajevo. Nesse transporte público viajavam adultos e crianças e houve muitos feridos e mortos. Os comentários que se ouviam recordavam um incidente parecido, que teria acontecido no ano anterior, onde snipers muçulmanos abriram fogo sobre um autocarro com passageiros da sua própria etnia, a fim de contribuírem para a narrativa mediática de culpabilização aos sérvios.
Contudo, a mim, o que mais me marcou naquele dia foi a simples pergunta do de um miúdo que morava na minha rua que, traduzido pelo irmão mais velho, me perguntou: “Como era a Guerra em Portugal? “
Para aquela criança, a guerra era a normalidade e não entendia a coisa de outra forma. Desta forma, todos os países deveriam ter a sua própria guerra, com o ixotísmo próprio de cada região. Com os seus quatro anitos mal medidos, tinha a consciência adaptada aos últimos três anos de cerco à Cidade de Sarajevo. Ele nunca tinha tido a oportunidade de jogar à bola com outras crianças na rua, sem estarem preocupados com os snipers ou a artilharia inimiga. A única brincadeira de rua daquela miudagem era o “jogo das escondidas” … literalmente.

Na outra ponta da Europa, em Lisboa, eu tinha um outro miúdo um pouco mais novo e fiquei impressionado com a situação, ao ponto de ter desenhado este (acima) cartoon para exprimir o que sentia. Este desenho acabou por dar a volta ao Mundo, uma vez que os mesmos camaradas Capacetes Azuis pensavam exactamente o mesmo que eu, e usaram-no também para complementar o velho Grego:- “Os velhos decidem fazer a Guerra mas são os jovens que morrem a combatê-la” … e as crianças que lhe sobrevivem ficam marcadas para a vida!
