Os media na guerra da Bósnia – “If it bleeds it leads”.

No final do mês de novembro de1995, quando já se passeava pelas ruas de Sarajevo devido ao recente Acordo de Cessar Fogo, reparei numa placa de mármore, fixada num prédio de esquina ao final da Avenida Marechal Tito, que dizia:

– “A verdade foi a primeira vítima da guerra fratricida nos Balcãs”.

Tinha lá sido colocada, no ano anterior, por um pequeno grupo de intelectuais que conseguiram iludir os snipers. A origem desta frase é atribuída ao Senador Americano Hiram Johnson (1918), quando se referiu à Primeira Guerra Mundial e ao peso que a desinformação, a censura e a propaganda tiveram sobre os resultados das batalhas.

O paradigma aplicava-se na perfeição à Guerra da Bósnia. A verdade estava sufocada debaixo dos argumentos políticos de cada uma das fações. Os sérvios tinham perdido a Batalha da Informação, e isso fez toda a diferença nas Guerras da Ex-Jugoslávia. Nos tempos modernos, podiam-se ganhar todas as campanhas, e ainda assim perder a guerra, se não se soubesse contar a história; e depressa. Os Muçulmanos Bósnios entenderam isso e dominaram o assunto mediático, influenciando as decisões do campo de batalha. A forma de fazer a Guerra tinha evoluido (de novo).

A evolução do campo de batalha

O problema era que o jornalismo não tinha evoluído ao mesmo ritmo das suas próprias ferramentas. As comunicações via satélite exigiam notícias actualizadas a cada hora que passasse. Contudo, nem sequer as operações militares tinham um ritmo tão intenso. Após terminar um combate, normalmente entrava-se num período onde havia muito pouco ou nada a reportar; mas a exigência de mais notícias mantinha-se.

A ausência de “Breaking news” a toda a hora, conjugada com as agendas políticas de cada canal informativo, exercia uma tremenda pressão sobre as respectivas redações, as quais passavam a responsabilidade para os jornalistas no terreno. Para “calar” o chefe os repórteres buscavam qualquer coisa, muitas vezes provocando distorção na qualidade da informação. Noticiar primeiro passou a ter mais importância do que noticiar melhor. Não só isso, procuravam explorar todas e cada situação para publicar histórias que vendessem jornais e tempo de antena. Dizia-se mesmo entre os capacetes azuis

“Se (a história) sangrar, lidera (as notícias)” – (If it bleeds it leads).

If it bleeds; it leads

A presença de jornalistas passou a fazer parte dos briefings de caracterização do campo de batalha, tal qual faziam parte o posicionamento das forças beligerantes, a morfologia do terreno ou a meteorologia. A única coisa que os capacetes azuis podiam fazer era estarem preparados para operar naquelas condições.

Publicado por Paulo Gonçalves

Retired Colonel from the Portuguese Air Force

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