Operação Althea (UE)- As Equipas de Observação e Ligação (LOT) da Bósnia

Depois dos Acordos de Dayton entrarem em vigor na Bósnia Herzegovina, impondo a Paz no território a partir do final de dezembro de 1995, as Nações Unidas (UNPROFOR – UN Protection Force) passaram à NATO (IFOR – Implementation Force) a tarefa de monitorizar o cumprimento dos Acordos. A IFOR entrou na Bósnia com cerca de 60.000 militares e uma componente aérea baseada no território. Um ano depois, e após terem decorrido eleições livres no País, a IFOR atingiu a sua data final com êxito na missão e foi desactivada. Em sua substituição a NATO criou a SFOR (Stabilization Force), reduzindo a força no terreno para cerca de 32.000 militares. Posteriormente, com o evoluir favorável da situação de segurança na Bósnia Herzegovina, a SFOR sofreu uma nova redução para 12.000 militares. Dez anos depois (2 de dezembro de 2005), a SFOR foi extinta e a NATO passou a tarefa de monitorização da Bósnia para a União Europeia (EUFOR), que criou para o efeito a Operação Althea (a Deusa Grega que curava as feridas dos guerreiros), operação essa que tinha cerca de 7.000 militares (mantendo uma componente aérea).

Com cada vez menos militares no terreno, e cada vez mais concentrados em poucos locais do País, a EUFOR necessitava de manter um forte e actualizado fluxo de informação, a fim de poder tomar decisões atempadas no tocante ao emprego das suas forças. Desta forma, e uma vez que em 2007 estava prevista uma nova redução da força para somente 1.600 militares, o Comando da Operação Althea decidiu seguir o conceito das equipas de Observadores Militares das Nações Unidas (UNMO), criando as Liaison and Observation Teams (LOTs). Estas equipas foram estabelecidas em variados pontos da Bósnia Herzegovina, cobrindo a totalidade do território.   

Camp Butmir – Sarajevo – HQ da Operação Althea.

Contudo, contrariamente ao sistema dos UNMO, as equipes dos Observadores da EUFOR não eram multinacionais, nem estavam sob o Comando Operacional ou financiamento da União Europeia; eram o resultado de acordos bilaterais entre os países fornecedores de forças e o Governo da Bósnia Herzegovina, estando, isso sim, sob o controlo e coordenação táctica da EUFOR. Quem definia quantos militares deveria ter a LOT, que meios deveria ter (carros, computadores, armas, etc.), que especialidades, quanto dinheiro deveriam/poderiam usar para financiar projectos locais, etc., eram as nações de origem dessas LOT e não a União Europeia.

Portugal manteve durante alguns anos duas LOT na missão Althea, ambas em território Sérvio no norte da Bósnia. A localização das LOT portuguesas era em Derventa e em Modrica, muito perto da fronteira com a Croácia (cerca de 30 quilómetros entre Derventa e a ponte fronteiriça sobre o rio Sava). Embora tivessem Areas de Operação (Areas of Operations – AOO) distintas, as duas LOT apoiavam-se mutuamente, distanciando cerca de 30 quilómetros entre elas. Cada LOT Nacional era composta por seis militares e três intérpretes.

De notar que o Manual das LOT Europeias, que define o modo de actuação e as diferentes tarefas a desempenhar pelos observadores militares da União, foi aprovado com base no modelo proposto pelos portugueses, cujas LOT foram consideradas o modelo a seguir. Para além dos militares que constituíam as LOT, Portugal mantinha ainda militares em cargos da estrutura de Estado-Maior da Althea, tanto ao nível global da missão como ao nível regional.

As tarefas de uma LOT eram:

– Observar e reportar a situação na sua AOO;

– Investigar e providenciar prontamente respostas a Pedidos de Informação (Requests for Information – RFI) do Escalão superior sobre a sua AOO;

– Fazer contactos e ligação com outras organizações internacionais e forças vivas (civis/militares) da Bósnia Herzegovina na sua AOO;

– Apoiar a recolha de informação e o trabalho da Comunicação Social Internacional;

– Elaborar e manter actualizados planos de evacuação para fora da sua AOO, em caso de agravamento da situação de segurança.

Embora a composição de uma LOT fosse da inteira responsabilidade da Nação que a implementava, o modelo regular implicava que a LOT deveria de ter a capacidade de executar duas patrulhas (auto) distintas, manter condições de segurança física e de comunicações/documental, ter entre 6 e 10 elementos, com a capacidade de manter 75% do pessoal permanentemente na LOT.

Paralelamente às LOT, Portugal também contribuía para a Operação Althea com um contingente da GNR, formado por 34 elementos, o qual recebeu uma Transferência de Autoridade (TOA) do Ministério da Administração Interna para o Ministério da Defesa, e marchou para a Bósnia para integrar a Unidade Internacional de Polícia (militar) da Althea. Este contingente estava sedeado em Sarajevo (Camp Butmir 2) e integrava um pelotão de ordem pública e uma equipa de investigação criminal. De notar que a investigação criminal da EUFOR para a Bósnia Herzegovina esteve sob comando português.

Em 2012, no seguimento de novas reduções na sua estrutura, a EUFOR passou a ter somente 600 militares e assumiou exclusivamente funções de apoio ao treino das forças militares da Bósnia Herzegovina. Algo que se mantém até aos dias de hoje.

Publicado por Paulo Gonçalves

Retired Colonel from the Portuguese Air Force

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